5.1.26

LXVIII

Massive Attack, “Risingson”, in https://www.youtube.com/watch?v=85E9Q5Wx210

 “A revolving wheel of metal chairs

hang on chairs squealing.”


Esconde-se nos bolsos fundos do dia um ouro sem paradeiro. Vem às mãos, em forma imaginada, e derrota todos os corsários que sondam as equações. Mal deixam de sussurrar um lamento: tanto ouro por aproveitar faria as delícias de alguns felizardos. 

Mas não se tecem as teias das ideias por tais pergaminhos. A abundância como critério é um erro – os adversários apressam-se no prognóstico do autoapocalipse dos termos vigentes e da caducidade do capitalismo vigente. 

Os efémeros laivos de prazer esgotam-se na finitude, na apressada finitude, dos que profetizam o vagaroso cataclismo. Se o seu oráculo estivesse certo, seria um estertor agonizante, como um corpo condenado à extinção que se arrasta numa longa e dolorosa decadência. Ficariam quantos para narrar a proeza reivindicada pelos puristas do apocalipse?

Não será contradição de monta espelhar as virtudes do que vige. Os exageros perdem conta entre a lucidez que se torna omissa. A adulteração da humanidade está em curso e parece que somos lídimos candidatos a ver o nosso espetáculo decadente como se estivéssemos por fora de nós e ao mesmo tempo não regateássemos ser os piores críticos de nós mesmos. Essa é uma capacidade que se extinguiu com a capitulação a que fomos conduzidos. 

Acordamos sob o sequestro de vultos sem nome que nos tomam por benfeitores que se esqueceram da estultícia que se encordoa nos dedos. Dizemos: oxalá os versos de uma epopeia futura nos resgatem do emparedamento em que fomos aprisionados. Não queremos ser vítimas das tempestades nomeadas pelos que profetizam o apocalipse. Devíamos conservar um módico de independência que impeça sermos instrumentalizados em nome de uma vulgata – o suicídio programado no fim da ambição que perdeu a medida. 

Corremos a favor do sangue que nos distingue de máquinas. Saibamos conservar as diferenças para não sermos vontades domesticadas por máquinas sem alma.

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