Nick Cave and the Bad Seeds, “The Weeping Song” (live at Glastonbury), in https://www.youtube.com/watch?v=ia0Fw5QRr8I
“Go, son, go down to the water
and see the women weeping there
then go up into the mountain
the men, they are all weeping too.”
A corda toda, quando se acorda. Pois se as pessoas acordam estremunhadas, é porque não tiveram no sono um cais que aplacasse os sobressaltos com que se saldou o dia pretérito. O sono devia ser a véspera de um despertar vívido, como se em nós trouxéssemos um manómetro que mede as forças disponíveis e o ponteiro disparasse para os níveis estratosféricos da energia.
A manhã, ou melhor, andar nas ruas logo pela manhã, testemunha que as pessoas não acordam com a corda toda. Andam cabisbaixas, ainda sitiadas pela hibernação noturna, como se fosse possível ler nos seus rostos e nas suas poses corporais o anúncio “estava bem na cama”. Algumas são fantasmas em movimento. Outras apascentam uma má disposição, visível na expressão facial e no ar carregado que arqueia o corpo sobre um pêndulo de negatividade. Em programas radiofónicos feitos para acompanhar as pessoas quando saem de casa para o trabalho, os locutores repetem a ladainha semanal de quem faz a contagem decrescente dos dias que faltam para o fim de semana – e a contagem começa logo na primeira hora radiofónica de segunda-feira, ilustrando o sacrifício de uma semana composta por cinco dias de trabalho e dois de descanso.
Casos haverá em que considerar a manhã uma heresia não é sintoma do sacrifício de ir trabalhar; trata-se apenas de noites mal dormidas, de sonos extemporaneamente interrompidos e não reatados, de insónias que postergam o sono, de sonos colonizados por pesadelos tremendos. As pessoas vingam-se na manhã, como se ela fosse culpada pelas noites mal dormidas. Para serem justas, deviam culpar a noite que não foi generosa com o sono.
A maioria trata mal a manhã sem que à manhã possa ser atribuída responsabilidade. Usando a linguagem de trapos da gestão, as pessoas fazem outsourcing dos seus problemas. A versão moderna do lema “a culpa morre solteira”. Numa penosa procissão de rostos sorumbáticos e corpos que aparentam pesar mais de cem quilos, todos nos parecemos insuportáveis. Mas a culpa não é da manhã. A culpa tem mesmo de ficar solteira para toda a sua vida: os rostos sorumbáticos em corpos pesados são vítimas da noite que conspira contra elas, ou de uma relação conturbada que mantêm com o trabalho.
Acordar como se as forças estivessem exangues é um desperdício da manhã. Um atentado à lógica: a manhã devia servir para ostentar as forças em toda a sua pujança. Se muitos acordam como se precisassem de ir dormir, como aguentam o resto do dia?
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