13.1.26

LXXIV

Dry Cleaning, “Hi My Head All Day” (live at WFUV), in https://www.youtube.com/watch?v=Rbvz72f0ISs

“Life, a series of signals and memorials 

telling us this or that 

telling us this or this, think of that (...).”

Sentia como se dentro de mim só houvesse baldios. A vegetação a condizer, arbustos que dificilmente teriam nome a não ser para os botânicos. Mas não queria que os caudais insondáveis que me habitam interiormente fossem espaço ocupado por peritos. Queria continuar a ser um rosto sem nome para os que não soubessem o meu nome.

Sentia que as palavras eram mordaças executadas por vontades divinas. Não que acreditasse em deuses (e o plural não é incidental). A vontade estava penhorada pelas palavras contrafeitas. Invisíveis, como se fossem fantasmas que povoavam o espírito contra a sua vontade, os malfeitores apoderavam-se da serenidade que era convocada para a estrema do dia. Era como se corresse desamparado em cima de uma fina corda sobranceira a um precipício, com a audácia de desviar o olhar para baixo, só para experimentar a improvável ausência de vertigem. 

Nada disto coalescia com a ideia de baldios interiores. Como é de notar por qualquer observador atento, não seria de notoriedade que andava em demanda. Era o contrário: um anonimato heurístico, como se uma demanda interior percorresse as veias e proclamasse a urgência de ser indiferente aos demais. Tal como eles eram indiferentes. A reciprocidade não pode ser adestrada de ânimo leve. 

Na madrugada, parecia que a morada era diferente. Talvez fosse do silêncio que desmentia a roda-viva que suava do lado de fora das janelas. Ou da noite que se demorava teimosamente nos dias mais profundos do Inverno, como se a claridade tivesse de ser postergada para ocultar as sevícias que o mundo lá fora não hesita em cometer. O anonimato dos baldios ajudava a decantar o tempo vagaroso. Naquela solidão madrugadora sirvo em mim o silêncio conciliador, o manancial que alimenta a prodigalidade de um pensamento. Antes que a roda-viva, com a multidão ingente que a alimenta, viesse estilhaçar a serenidade que julgaria campestre, se não soubesse que meus não eram os domínios debaldios. 

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