8.1.26

LXXI

Royal Blood, “Lights Out” (live at Later...with Jools Holland), in https://www.youtube.com/watch?v=SAGrejll9s8

Euphemisms on a loop interchanged 

which hands get to turn the final page?”


Quanto do tempo que vivemos é herança dos sonhos? Quantos dos medos perenes são a lavra de pesadelos medonhos? Não contamos com a contingência nos planos hermeticamente selados que somos ensinados a adestrar. Entre o caos, esta latina desorganização que cultiva a improvisação, desaprovamos a panaceia do critério e dos planos que previnem a incerteza do futuro – como se o futuro, na sua intrínseca contingência, autorizasse essa prevenção.

Há um certo conforto interior na ideia de que foram tomadas medidas preventivas para caucionar os imprevistos que colonizam o tempo futuro. Como se fosse um descargo de consciência e tudo pudesse continuar sem vultos a adejar sobre a pele desse tempo. Faz parte de um código de conduta: não sabemos nada sobre os dias consecutivos, prevenimos a indeterminação desse tempo através de almofadas que devem funcionar como um airbag em caso de sinistro automóvel. Por mais incerta que seja a incerteza, num desdobramento da contingência até ao infinito, pois sabemos o que é a incerteza futura, mas não estamos em condições de antecipar a forma concreta como ela se congemina.

Da mesma forma que os sonhos podem ser arquitetos de concretizações com assinatura futura, os pesadelos podem ser presságios da indeterminação que se lança contra nós. Atuamos por estimativa, que nem sequer a tentativa e erro é critério que se possa usar perante a ausência de contornos do futuro. 

Se um pesadelo encena o que nos sobressalta e se não queremos que essa encenação se materialize, tomamos medidas preventivas. Não há desperdício de recursos: se esse mal não for confirmado pelo futuro, os recursos empenhados na sua prevenção tiveram a utilidade de um conforto que se algema à serenidade futura. O risco não foi confirmado, mas estávamos preparados para a sua ocorrência. Só não sabemos se o plano dedicado à prevenção dessa contingência seria suficiente para travar os seus efeitos se ela tivesse passado do papel à prática. Ou então, pode ser tudo fruto da necessidade de encontrarmos passatempos. Sabemos que não temos força nas mãos para travar os efeitos de uma contingência que sobre nós se abata. Ficamos apaziguados ao saber que fomos preventivos e que temos um plano para enfrentar os danos causados por uma contingência. 

Os pesadelos têm esta serventia. São extemporâneas manifestações de um futuro que pode acontecer. Se lhes dermos importância, estamos preparados para lidar com os seus efeitos caso o pesadelo seja teimoso a ponto de se transformar em realidade.

Sem comentários: