27.1.26

LXXXIV

Antony and the Johnsons, “Hope There’s Someone”, in https://www.youtube.com/watch?v=LyMGEq82uL4


“Oh, I’m scared of the middle place

between light and nowhere

I don’t want to be the one

left in there, left in there.”


Ninguém sabe o que é a pontaria afinada. É preciso um alvo, e ninguém sabe o seu paradeiro. Sem um alvo para acertar, como se pode saber o que é a pontaria e, mais ainda, se a dita está afinada?

À falta de um contexto que suponha a validação de uma hipótese, a convocatória do contrafactual é especulativa. Depressa entra no domínio da fantasia, com uma revoada de hipóteses a ensaiar uma coreografia distópica. As hipóteses são agitadas umas contra as outras, o caos entretecido para causar um naufrágio de proporções bíblicas. 

Se o passado perdeu validade no futuro que o confirma como facto consumado, o futuro dispensa vir a tiracolo do passado. Há muitos especialistas em vaticinar o passado à bolina da História. Os mais credenciados não admitem a repetibilidade do passado (nem como farsa, nem como tragédia), mas acabam por ceder à tentação de confundir as lições da História com o caudal próprio em que o futuro se faz transportar. 

Folgo em saber que a especialidade da História do futuro ainda não foi inventada. Tirando uns histriónicos que juram a pés juntos estar na posse de um oráculo irrepreensível (e depois nunca admitem o logro quando o futuro, ao acontecer, tende a desmenti-los), só os alucinados é que podem dizer que têm um trato com o futuro. Uns e outros desprezam o mais importante: para que tanto querem os viciados do futuro que este desbote seu rosto antes do futuro se afeiçoar ao presente? Não entenderão que aí, ao levantarem o céu do futuro, estão a matá-lo, pois a partir daí o futuro se metamorfoseou em presente?

Os déspotas que querem saber do caudal do futuro já se arrependeram do presente há muito tempo. Ou esqueceram-se do presente. Fingem que o presente se inventaria no único momento do tempo que é vivo, mas é de uma efemeridade que já ninguém nota. 

Os procuradores do tempo que já fez estrada e os outros que despedaçam o presente por só lhes importar o futuro são os tiranos que condenaram à irrelevância a figura tangível do presente. Essas pessoas aproveitaram-se da farsa de que são atores para liquidar o presente. São as suas maiores vítimas: vivem aprisionadas a um tempo que se gastou na usura da memória ou a um tempo inglório que ninguém sabe se, quando e como vai acontecer. 

Um dia, o rapaz perguntou ao professor se o passado era mais velho do que o futuro. O professor ficou estático, a pensar se a pergunta era legítima e, em caso afirmativo, como seria a resposta. Depois de alguma discussão e de recorrer ao método de tentativa e erro, o professor revelou que um grupo de peritos estava reunido há quase vinte anos e ainda não tinha percebido se o futuro é mais gordo do que o passado. “Também não interessa”, concluiu o rapaz, já sem o tom inquisitivo. Pegou na gaiola do rouxinol e abriu a portinhola. O rouxinol evadiu-se. 

Corria de pessoa em pessoa que o rouxinol partiu em demanda do futuro.

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