20.1.26

LXXIX

Badly Drawn Boy, “This is the Day” (live on the Chris Evans Breakfast Show with Sky), in https://www.youtube.com/watch?v=Y6YUhFbdxmI&list=RDY6YUhFbdxmI&start_radio=1


“You smile and think how much you’ve changed 

all the money in the world couldn’t buy back those days.”


Nos processos competitivos há diversos lugares em que nos podemos situar. No património genético da democracia, estão incluídas a pluralidade de posições e um dever – podemos dizer – cívico de aceitar o direito à diferença. Este é um direito que se desdobra nos múltiplos sentidos em que se localizam os diferentes apeadeiros em que se situam as pessoas. Fundamenta-se num direito de reciprocidade: o direito de admissão neste tabuleiro cívico não é simétrico e restrito a uma casta; para sermos admitidos, temos de admitir, em igualdade de circunstâncias, os outros que de nós divergem.

O processo cívico é, por natureza, competitivo nas sociedades abertas. As pessoas escolhem uma posição e defendem-na, se o direito de defesa vier à colação. Tanto vale para afirmar uma posição quanto para se defender dos adversários. Como é um processo competitivo, as posições tendem a ser exacerbadas no calor da argumentação. Desde que não ocorram excessos incompatíveis com o respeito pelo outro e as linhas vermelhas que são pisadas quando a intolerância efervesce, faz parte do processo competitivo ter o mesmo direito a um pronunciamento que têm os que pensam de maneira diferente. Desde que, convém repetir, não sejam ultrapassados os limites da decência e que não haja pessoas abatidas por atos e palavras miseráveis.

O processo eleitoral, por muitos ainda entendido como o momento genesíaco da democracia, é um caldo turbulento em que as palavras derrapam com facilidade para o exagero. As irritações epidérmicas motivam uma sequência de causa e consequência que, por vezes, tem delimitação difícil, não sendo fácil apurar o que é causa e o que é consequência. As palavras fervem a menos dos canónicos cem graus centígrados. As pessoas invocam, com plena legitimidade, o direito à palavra. Às vezes, o exercício desse direito ofende outros. Os destinatários podem ser magoados com ou sem intencionalidade. Depois vem a escalada de ação-reação-re-reação, e assim sucessivamente. 

Se um famoso comentador acusa de colaboracionismo quem não quiser votar no candidato que se opõe ao candidato que pode lesar a democracia, está no seu direito. Pode argumentar que as suas palavras são um repto, não um ultraje a quem se recusa a promover uma decisão eleitoral binária. Podem ser palavras intencionalmente provocatórias, como quem espeta um cocktail de adrenalina para despertar os espíritos adormecidos de uma letargia que pode ser prejudicial ao futuro do sistema político. Os que se sentirem injuriados (“colaboracionismo” carrega um contexto histórico que não pode ser menosprezado) podem devolver a graça à proveniência. Podem, por exemplo, e sem embuço, mimosear o acusador com palavras que exibam a sua deficiência de carácter. 

Nem uns nem outros podem reclamar do exercício da palavra, por mais que uns e outros se sintam ofendidos com a posição de alvo em que foram colocados. É da natureza do processo competitivo que insta os seus participantes a exercerem o poder de encaixe. Sob pena de, ao quererem acautelar a dignidade que acusam estar a ser vilipendiada, castrarem o direito ao exercício das palavras pelos que se situam no outro lado da trincheira. 

Para o caso, tanto uns têm o direito de não votar no candidato que aparece como salvador da democracia, quanto os outros têm o direito de os acusar de apatia (usando uma fórmula diplomática) que pode comprometer o devir da democracia. Como os primeiros têm o direito de reagir contra aqueles que já decidiram sobre o imperativo categórico do voto inevitável, sem serem alinhados, por falta de comparência, com o candidato a déspota que é a alternativa de voto. Lembrando que um não-voto é apenas um não-voto, não é uma indireta manifestação de apoio àquele candidato que foi promovido a voto inevitável. Quando as palavras escorregam para o exagero, o sangue efervesce e as palavras perdem temperança. É intrínseco ao processo competitivo. Preferiam a mordaça que institui o discurso único, sem direito ao contraditório? 

Aos que, sem hesitação, responderem “não” àquela interrogação, fica-lhes destinado tolerar o exercício da palavra dos outros quando dela resulta uma posição incómoda. É o preço de respirarmos um ar despoluído de chancelas de vigilantes em nome do que quer que seja. O preço de nos podermos sentir ufanos por participarmos num processo cívico competitivo.

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