28.1.26

LXXXV

Joy Division, “24 Hours”, in https://www.youtube.com/watch?v=e5J5VjDQyyg


“Oh I realised how I wanted time

put into perspective, try so hard to find 

just for one moment, thought I’d found my way 

destiny unfolded, I watched it slip away.”


Não era a favor de dividir para reinar. Até porque as monarquias são atávicas. Tome-se o verbo “reinar” no seu sentido metafórico. Contra aqueles que se extasiavam com a procissão em que se torna o exercício do poder, não capitulava perante o dever de confiar nos outros. 

(Não conseguia compreender como expressões idiomáticas como “dividir para reinar” conseguiram escapar ao escrutínio dos vigilantes da nova língua e dos padrões do aceitável. A monarquia está nos seus antípodas, só por distração é que não proibiram o uso da expressão. É como o bolo-rei, que resiste certamente por desatenção dos curadores do nosso bem-estar.)

Nunca admitiu: a confiança nos outros era o eufemismo oportuno para se desembaraçar de assuntos enfadonhos (por um lado) e porque o poder era tão desinteressante que não conseguia reprimir a pulsão para a preguiça (por outro lado). Não o podia admitir. Este é um tempo em que fica mal admitir pecadilhos como a indolência. Por mais que a voz comum chegue a terça-feira já a suplicar pela tarde de sexta-feira, pois trabalhar é um sacrifício, há um certo estar burguês que glorifica o trabalho de tal forma que fora do trabalho quase não existe tempo livre, tantas são as empreitadas que estreitam o túnel do tempo. 

Um dia, fartou-se do biombo em que se escondia. Fartou-se de ser elogiado por ser o campeão da delegação nos outros. Não podia ser cúmplice de um logro. Confiava nos outros não pelos outros; era já tempo de eles e elas perceberem que não era pelas suas capacidades que mereciam a sua confiança. Confidenciou, primeiro num círculo restrito: o que o movia era a preguiça que fermentava no desinteresse daquelas empreitadas, no poder como força bruta. Depois foi alargando o número dos que o escutavam, boquiabertos, a admitir o porquê de ser imbatível na delegação nos outros. Depressa saltou para o espanto dos seus pares e dos que aspiravam a figurar entre a casta. O espanto não capitalizava a seu favor.

Depois do passa-a-palavra contagiou-se a rejeição. Os seus pares e até os que o aspiravam a sê-lo escusavam-se a cumprimentá-lo. Os sítios de eleição onde a casta amesenda começaram a recusar as reservas de mesa em seu nome – até que ele desistiu de frequentar esses lugares. Havia muita gente que dantes fazia uma genuflexão evidentemente oportunista e que agora evitava andar pela mesma rua. Colado ao rótulo de uma peste, foi despedido e levou uma indemnização acima do tabelado por lei. Era como se estivesse a ser pago para deixar de ser um deles. 

Não se arrependeu. Se ser encurralado no esquecimento é a paga pelo desassombro da franqueza, preferia ser olhado como um pária.

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