19.1.26

LXXVIII

The Talking Heads, “Once in a Lifetime”, in https://www.youtube.com/watch?v=5IsSpAOD6K8


“Letting the days go by, let the water hold me down

Letting the days go by, water flowing underground

Into the blue again, after the money’s gone

Once in a lifetime, water flowing underground.”


Abro o jornal e passo, sem ver, a página da necrologia. Não vilipendio os mortos nem os voto à indiferença. Não quero saber dos que deixaram de estar vivos e faço-o como a homenagem possível aos falecidos. Ou pela hipocrisia própria de quem tem um medo de morte da morte.

É por causa da incompatibilidade pessoal com a morte que considero as páginas de necrologia inúteis. De acordo com as convenções, os que morrem têm direito às exéquias instituídas. Durante as exéquias, é bom costume homenagear os que deixaram de fazer parte do inventário dos vivos. É para isso que servem a presença no velório, a assinatura do livro de condolências, desencomendar a elegia que embainha palavras elogiosas e emocionantes num elogio póstumo a destempo (pois elogios destes rareiam em vida), e a ida ao funeral, de preferência testemunhando o momento pungente da descida do caixão à sepultura. Para que o falecido possa ser devidamente homenageado, a mensagem tem de passar de boca em boca. As páginas da necrologia dos jornais, dos jornais que ainda as publicam, servem essa finalidade.

Tiro uma conclusão antes do tempo, mas que se tem confirmado: mesmo que passe os olhos pelas páginas da necrologia, os falecidos cujos rostos estão pela penúltima vez afixados em lugar público (a última é na sepultura) são desconhecidos. Não preciso saber das pessoas que não conheço e que têm funeral marcado para os dias seguintes. Prefiro agarrar-me à tábua de salvação que é a vida. 

Na impossibilidade de vedar a hipótese da morte, ao continuarmos expostos à sentença da finitude irrecusável, ao menos que se esvaziasse o uso social da página da necrologia. Há dias, num café, sentou-se um casal de idosos na mesa vizinha. Ele pediu o jornal local. Abriu na página da necrologia, como se os dedos estivessem treinados para saberem de cor o número da página onde está a página da necrologia. Passaram vinte minutos a comentar os mortos que conheciam (e não eram poucos). Depois da autópsia social dos falecidos, dispensaram as outras páginas do jornal. As outras notícias eram irrelevantes. Só contavam os mortos e, sobretudo, os conhecidos. Tinham pegado no jornal local para atualizarem a agenda dos funerais.

Em vez de inspecionar a página da necrologia, prefiro esta censura seletiva em nome da vida. Se a necrologia está na página oito, o jornal passa da página sete para a página nove. A morte tem tempo para ter o seu tempo. Para que se viva a vida sem o fantasma da morte a abater-se como uma ameaça perene. 

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