22.1.26

LXXXI

Tears for Fears, “Pale Shelter” (live), at https://www.youtube.com/watch?v=0ojoxXXqJ5k


“I’ve been here before 

there is no why, no need to try.”


Havia dias em que desejava que houvesse anjos e que descessem sobre as ruas para o tutorar. Era tomado por uma fragilidade súbita. Não sabia explicar a origem da fragilidade. Sentia-a como um punhal que espadanava a carne sem causar dor, apenas um desconforto que adiava a finitude do dia. Era como se desses dias frágeis não se conseguisse despojar e eles ficassem a pairar sobre o tempo como o seu anátema.

Os anjos não existem – sabia-o de ginjeira. As pessoas é que precisam de embaixadores que os extraiam dos malefícios que, imaginados ou com provas da sua dilaceração, pesavam sobre o olhar. Não era diferente das outras pessoas, por mais que se colocasse na posição de observador e tomasse as vezes de um sociólogo amador. Quando as horas pareciam intermináveis e as fragilidades troavam, arrancando o sangue à apatia fingidora, suplicava pela curadoria dos anjos que pudessem aplacar essas fragilidades. Ou pelo menos, que os anjos dispusessem a anestesia necessária ao fingimento das fragilidades.

A fragilidade que mais pesava era admitir as demais fragilidades que o tornavam uma presa fácil. Este era um mapa difícil de percorrer. Não eram só as fragilidades que o acometiam e sobressaltavam os dias passados pelo acosso permanente; ao reconhecer que ao fardo que não gostava de carregar somava-se a outra, e maior, fragilidade a todas as que a fundamentavam.

Como homem fraco, suplicava aos anjos possíveis que lhe endossassem o elixir do esquecimento. Tudo o que queria era esconjurar a consciência, o diamante em bruto que mantinha o sangue em ebulição. Queria ser possível emancipar-se da consciência, libertar-se do pensamento tirânico que o colocava na posição desconfortável de ser sociólogo de si mesmo. 

Os anjos deviam existir. Pelo menos enquanto estivesse a ser trespassado pelas dores lancinantes ao ser refém da consciência que era o espírito crítico de si mesmo. Quando as fragilidades subiam a palco, desnorteava-se com a sensação de ser a pior pessoa – pelo menos das que conhece. Já não era o mal total. Entre as que desconhece, a lei das probabilidades garantia que muitos mais seriam ainda piores. 

Às vezes, o recurso às fragilidades dos outros é a panaceia requisitada para disfarçar as próprias fragilidades. 

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