Pixies, “Monkey Gone to Heaven” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=FMH3akt07zs
“The creature in the sky
got stuck in a hole, now there’s a hole in the sky
and the ground’s not cold
and the ground’s not cold, everything is gonna burn (...).”
Protesto muito com os velhos que não se despacham a conduzir o automóvel. Julgo poder arriscar dizer, em todo o caso, que é mais a gente que se exaspera no meio do trânsito e perde a compostura com facilidade. Nisso, nivelam-se pela igualdade: os raspanetes são para velhos, menos velhos, jovens e menos jovens.
Quando exerço a retrospeção, a frieza de espírito condena a irascibilidade rodoviária. Faço uma repreensão interior por ser impaciente com os velhos que circulam tão devagar e hesitantemente nas ruas e estradas. Os velhos têm todo o tempo do mundo – ia arriscar o diagnóstico, mas travei a tempo para não cair num lugar-comum que dá o flanco ao idadismo. Mas é um facto: se há algo que os velhos já não têm muito em carteira, é tempo. Paradoxalmente, talvez seja por saberem que o tempo lhes é escasso que se movem tão vagarosamente pelas vias públicas. Se o tempo escasseia para todos e ainda mais para os velhos, é sensato que arrastem a noção de tempo através da circulação lenta quando estão ao volante.
É-me dado a saber que a impaciência com os velhos é uma mal disfarçada inveja por terem chegado a um tempo que não posso garantir que possa vir a ser meu. Devia aprender com os velhos que a pressa em apressar o tempo, circulando às vezes em velocidade excessiva, é uma tautologia que se joga contra as minhas pretensões. Querer chegar depressa ao destino é adelgaçar o fino fio do tempo que me separa da finitude. Apressar o tempo faz um favor ao tempo que tem pressa de o ser. Pelo caminho, estreitam-se os corredores que pressentem a finitude.
A teoria das probabilidades soma-se a favor da prudência dos velhos. Ao conduzirem devagar, são menos suscetíveis ao sinistro. E, por mais que a metáfora do atraso persistente paire como anátema sobre os velhos que atrasam o trânsito e, assim, atrasam tudo o resto, o vagar dos velhos devia ser a lição a reter pelos apressados que, quando chegarem à idade deles, vão arrepender-se de terem sido reféns da urgência de quem não dá valor ao tempo no seu vagar.
Prometo não perder a paciência com os velhos nas ruas e nas estradas. Pelo menos até amanhã.
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