29.1.26

LXXXVI

Love and Rockets, “No New Tale to Tell” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=JxOeD1PdjmA

 
You cannot go against nature

because when you do

go against nature

that’s part of nature too.”


Um embaraço com as coisas conhecidas, e as consumições que o conhecimento traz pela calada do dia, fazem perguntar se a felicidade não rima com não querer conhecer o conhecido. Uma espécie de anestesia, que adormece o conhecimento e o condena à apatia – ou que, desfazendo os nós de um paradoxo, transfigura o conhecimento em desconhecimento intencional. Uma maneira de encontrar um exílio sem sair do lugar.

Ler jornais tem efeitos adversos sobre a saúde mental. E, todavia, a sede de conhecimento atiça o irrecusável desejo de abrir um jornal e ir lendo primeiro as gordas e, depois, caso as exigências de conhecimento se unam num matrimónio com a curiosidade, as pequenas letras que narram as vicissitudes de um acontecimento. Muitas vezes caldeadas com uma análise superficial, umas vezes, e a desinformação propositada ou apenas eivada de ignorância, noutras vezes.

Um efeito acessório do conhecimento é a entronização da razão: as pessoas querem ter razão. Querem ser elas a ter razão e não as outras que se movem contra a razão que julgam ter. É um concurso de razões ensimesmadas, frequentemente amoedadas na semelhança entre si, mas que um narcisismo não disfarçado, de braço dado com a popularização de uma conceção distorcida de democracia, leva a tê-las como dissemelhantes e até opostas. Nas olimpíadas da razão, os sábios medram numa densidade por quilómetro quadrado sem precedentes. Ninguém se queixe de que vivemos na idade das trevas.

Tudo devia ser virado do avesso. Os embaixadores do conhecimento, os que se atiram de cabeça ao noticiário de todas as geografias, deviam abdicar da incumbência. Começariam à experiência, um dia primeiro, uma semana depois, a jeito de cumprirem a abstinência de um mês mais tarde. Por etapas, o desmame do conhecimento pode causar efeitos secundários de outra grandeza. 

Numa fase mais avançada, já depois de desmatada a sede de conhecimento para não ficar atrás da atualidade, seria a vez de perder o vício da razão. O benefício da dúvida seria dado a quem tanto quer esgrimir a certeza indiscutível da sua razão. Numa pose de passividade congruente com a curiosidade intelectual, à espera de que a razão assim ostentada fosse provada. Sem esta exigência, convocar a razão não passa de um exercício frívolo, como quem diz “é assim porque sim”. 

Nessa altura, sem a urgência do conhecimento e a fobia da razão como nome do meio, a lucidez estaria pronta a fazer-se ao caminho, removidos os obstáculos que a embaciam: o conhecimento ciclópico e exibicionista e a fobia destravada da razão que a exclui da posse dos outros em virtude de uma predestinação justificada pelo estatuto sublime do eu.  

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