Baxter Dury, “Allbarone”, in https://www.youtube.com/watch?v=Q0JAy4Fa9HA
E se houvesse a música de protesto contra a música de protesto? Algo a que se chamasse música de desprotesto, para anular os contornos políticos que adulteram a música. Para que os ouvintes da música de protesto deixassem de ser infantilizados, vazando a retórica retorcida que continua a convocar para a música de protesto um estatuto de libertação dos espíritos malignos que nos regem, mas que não quadra com o pensamento forçado ao qual a música remete. E para despir a música de ideologias, agendas políticas e causas também políticas que a contaminam com propósitos que extravasam a sua natureza artística, que é a sua filiação primeira.
Sosseguem os consumidores do género: não se parte do pressuposto de que o antídoto da música de protesto seja a sua proibição – quem se situa na órbita da música de desprotesto não pode admitir práticas restritivas da liberdade que são próprias daqueles músicos que gravitam à volta de propostas políticas que descem para a limitação do livre-arbítrio. A música de desprotesto seria uma reação à música de protesto, quase como se os músicos nela situados partissem de uma determinada música de protesto e a esvaziassem através da argumentação ou de um enredo que vira uma certa música de protesto do avesso.
Uma música de desprotesto não teria a ambição de propor uma agenda ou defender uma causa, ou abrilhantar (segundo o autor) uma ideologia. Limitar-se-ia a contrariar uma determinada música de protesto, esvaziando-a por dentro. Alcançando a esterilização normativa da música, recuperando para a música o seu estatuto intrínseco de arte. Partindo do pressuposto de que a arte não deve ser cúmplice da política em todas as suas aceções, para que a política não adultere a veia artística da música.
A música de desprotesto cuidaria de anular os logros consumados se algum dia o mundo, ou o que resta dele para os tempos vindouros, viesse a ser pautado pela ideologia representada pela música de protesto. Seria altura para interpelar os mais famosos autores da música de protesto com um rosário de perguntas incómodas. Já que eles não podem responder, porque quase todos desviveram, perguntar-se-ia aos seus discípulos, que, em menor número e com menos expansão junto do público, reproduzem o estilo. Como se fosse uma desgarrada entre um autor de música de protesto e outro de música de desprotesto.
A liberdade não existe sem o direito ao contraditório. Os músicos que não se reveem na música de protesto, e que são potenciais autores da música de desprotesto, estão em falta ao continuarem em silêncio perante os imperativos categóricos dos autores da música de protesto. O que faz falta é a música de desprotesto.
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