Massive Attack ft. Elizabeth Fraser, “Song to the Siren” (live at Primavera Sound Porto 2026), in https://www.youtube.com/watch?v=MrT-lydA1Wo
Depois de três dias de concertos no Primavera Sound Porto, a problemática da politização da música (ou da música politizada) veio à colação para quem, como o autor, estuda e investiga Ciência Política, é frequentador assíduo de concertos e nunca faltou a uma edição daquele festival. Ao longo dos anos, o inventário de concertos que se colam a mensagens políticas não obedece a um rigor estatístico, resultando de uma impressão que mergulha numa comparação intertemporal. A favor do rigor estatístico, recordo que dos doze concertos a que assisti do início ao fim nesta edição do festival, cinco tiveram essa carga política. Quase metade.
A problemática da permeabilidade das artes à política, ou da politização de manifestações artísticas, não é nova. Já escrevi sobre a simbiose entre teatro e política. Como sinto que, de ano para ano, mais músicos trazem a política para os discos e, sobretudo, para os concertos, a dialética entre as artes e a política aviva-se. Se defender que a música não deve ser contaminada pela política, estou a tomar partido e a cercear a liberdade de expressão dos músicos? Quem sou eu para julgar um músico pelo conteúdo político que ele(a) empresta à sua criação artística sem que o(a) artista reaja acusando-me de invadir a sua esfera pessoal e a sua liberdade de criação artística?
Para este texto não ser treslido, apresento a meu favor a seguinte declaração de interesses: não me motivam preferências ou dissemelhanças ideológicas e políticas como critério de avaliação artística. Não são os pergaminhos políticos de um(a) artista que servem para me aproximar ou afastar dele(a). Guio-me pela estética para escolher o(a)s músico(a)s que estão na minha setlist. Não deixo que o preconceito político, tão exacerbado nestes tempos de polarização em que pessoas furiosas atiram-se umas contra as outras, influencie as minhas escolhas. Se tiver algum propósito, digo que músicos ou bandas como Robert Wyatt, Billy Bragg, Massive Attack, IDLES, Yard Act e Viagra Boys (as quatro últimas bandas com passagem pelo recente Primavera Sound Porto) integram as minhas preferências musicais.
A exposição de músicos e bandas à política tem aumentado. Como não há coincidências que se autojustifiquem, poder-se-ia ensaiar uma causalidade: se a música se abre à política, será porque a política nacional e internacional está ainda mais doente e os artistas não são insensíveis a essa patologia? Os artistas têm um dever de intervenção cívica e servem-se da música para despertar a sensibilidade cívica de quem os ouve? Mas, nesse caso, a música não está a ser adulterada pela política? Não perderá a genuinidade artística que os puristas reivindicam para a música (e para as demais artes)? Ou a música nunca deixou de ser de intervenção?
Duas derradeiras (e provocatórias) interrogações: e se os músicos amplificassem a retórica que se alista do lado contrário da trincheira, teriam o acolhimento que têm? Essa audiência continuaria a frequentar concertos e a ouvir bandas que divulgassem mensagens políticas que são objeto da sua reprovação?
Uma dúvida desperta as minhas reservas sobre o ativismo político de um número crescente de músicos: quando sobem ao palco e entoam pregões com carga política, não se insinua uma invasão da esfera individual de quem está na plateia? Quando músico(a)s repetidamente proclamam “Free Palestine” (é só um exemplo) com um tom de imperativo categórico, essa manifestação política não é um “convite” à concordância obrigatória do público? O que dizer da liberdade do público perante as manifestações políticas dos músicos? – tendo em conta que o poder de persuasão de um(a) músico(a) ao pegar no microfone e debitar nos muito altos decibéis uma frase política não é o mesmo que o de alguém que, sozinho e no meio da turba, profira algo nesse ou em sentido contrário.
(Outro registo de interesses se impõe como medida cautelar, para não ser mal interpretado pelos prosélitos da causa palestina: o que Israel tem feito, sobretudo em Gaza, mas também (recentemente) no Líbano, é ilegal e ilegítimo e devia ser motivo de ampla condenação internacional se os contornos da ordem internacional não fossem, infelizmente, os que são. Também defendo que os jovens e menos jovens que se excitam com proclamações públicas a favor da libertação da Palestina se informem devidamente sobre as virtudes do Hamas – ou sobre a biografia de Che Guevara, a título de exemplo.)
Quando o concerto dos Massive Attack se transformou num enxurro de mensagens com forte carga política, sobrepondo-se umas às outras (com episódica falta de rigor histórico, a somar-se a algumas escolhas duvidosas que, todavia, podem ser justificadas pelo subjetivismo), assaltando o pensamento de quem assistia, senti que a música tinha sido desterrada para um plano secundário. A instalação (proponho o termo com um propósito intencional) tornara-se política, com a despromoção da vertente artística. Perguntei à minha parceira, tão experiente nestas lides quanto eu, se o concerto não tinha sido adulterado.
Como professor universitário há mais de trinta anos, coleciono uma amostra representativa de sucessivas gerações que foram passando pelos bancos da universidade. Geração após geração, noto um desinteresse pela política, nacional e internacional, uma apatia que não se justifica pela falta de fontes de informação (pelo contrário), mas sim por um desinteresse congénito. Não se interessam pelo que os rodeia. O que não quadra com os pulmões que se abrem em uníssono quando um artista intercala duas músicas com o pregão “Free Palestine”, denotativo de um conhecimento da causa, a crer na forma imediata com que jovens e menos jovens reagem, quase pavlovianamente, ao repto do(a) artista.
Talvez eu esteja ao defender a separação das águas entre cultura e política. A certa altura, cruzei-me no recinto do festival com um jovem que envergava uma t-shirt com a mensagem “everything is political” (desconheço se a t-shirt se inspirava em Aristóteles). Preparemo-nos para uma nova cumplicidade entre música (e as outras artes) e a política. Enquanto (ou se) a política não se curar.
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