David Bowie ft. Robert Smith, “Quicksand” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=SoXDbDU9BbA
Não era a revolta tricotada que os movia. A norma das revoluções não é construtiva. Deita-se abaixo primeiro e depois pensa-se na reconstrução. Revoluções destas exigem sangue derramado e vidas deitadas fora. Ainda que tenham um mérito posterior, essas revoluções pressupõem uma terraplanagem que é sempre onerosa. Os seus defensores sopesam os prós e contras e asseguram, mesmo antes do tempo, que as revoluções compensam.
A revolução que eles queriam não era deste género. Não exigia um levantamento violento. Aliás, não identificava os sublevados, nem lhes impunha critérios para participarem na revolução. Os que se quisessem juntar eram bem-vindos.
Era uma revolução diferente em tudo, até porque as intenções dos que estavam mobilizados na intentona foram comunicadas às autoridades na exigência de todos os formalismos pensados e impensáveis. Com marcação de data – as outras revoluções nunca têm data prevista, acontecem quando podem ou quando têm um parto com fórceps. As pessoas que integravam as autoridades foram advertidas da emergência da revolução e convidadas a alistar-se nas hostes com a missão de consumá-la. Para não haver dúvidas sobre as intenções e a inviabilidade de qualquer esforço para decepar a revolução, anunciaram o nome da revolução: a revolução sabida.
Chegado o dia, a revolução tinha-se instalado com a mesma leveza com que muda a folha do calendário. A Constituição não mudou. Os titulares dos órgãos de soberania também não. O regime político mantinha-se. Não houve gente enviada para a prisão por delito político. Não houve arsenal usado na revolução. Ninguém morreu por ela ou por causa dela. Ninguém se opôs à revolução e ninguém fez discursos inflamados a favor dela. Não houve um pronunciamento solene a instalar a revolução de facto, que de Direito era dispensável pela continuidade da Constituição. Ninguém sabia explicar esta revolução, mas não havia quem, no país ou fora dele, perguntasse. A revolução sentia-se, como se o sangue tivesse sido renovado e as pessoas acreditassem apenas na única dádiva tangível – o tempo presente.
A revolução sabida era a materialização de um sonho. Como são raras as vezes em que as pessoas se lembram dos contornos dos sonhos, ninguém sabia em que consistia a revolução. Apenas sabiam que a revolução tinha acontecido porque era a revolução sabida. Como o paradeiro de um sonho que se fez carne.
Sem comentários:
Enviar um comentário