24.6.26

Manifesto contra os arquitetos da certeza

Gorillaz ft. Asha Bhosle, “The Shadowy Light”, in https://www.youtube.com/watch?v=EqmYpwRRzQk

Não são os espelhos que julgam intenções. Não são as amarras sólidas que garantem o porto de abrigo. As reviravoltas são pródigas e desarrumam a vontade orquestrada. As estradas são dispensáveis quando somos obrigados a improvisar e não podemos contar com certezas. 

A entronização de certezas é o resultado viciado de convenções. Somos educados na impaciente cristalização de certezas, ao arrepio do que se ensina na Filosofia. Os palcos a que subimos, quer queiramos ou não, congeminam-se sob um teto plúmbeo de nuvens carregadas de incerteza. Quando percebemos como somos gregários, participamos de um tricotado feito de múltiplos fios entrelaçados. Somos todos parte do destino uns dos outros e ficamos presos ao passado que é sempre recíproco com os demais. Ninguém pode acautelar uma certeza que julga sua se dela participam, voluntariamente ou não, uma miríade de outras pessoas, e se somos agentes passivos na vontade dessas pessoas. 

Grande parte da angústia é causada pelo remoinho que se levanta ao teimarmos que somos suseranos do destino que nos compete. Não aprendemos com sucessivos contratempos que o destino corre numa estrada paralela a que não temos acesso. Aqueles que se servem da diligência para evocar impecáveis planos que chamam por um certo destino, ignoram que os fatores exteriores à vontade podem não concordar com os nossos planos. As forças são arregimentadas num certo sentido, mas depois percebe-se que foi em vão. É uma frustração em sentido duplo: o desiderato fugiu entre os dedos e as forças empregadas podiam ter sido destinadas a um resultado mais provável. 

O que impede esse cálculo é a natureza do tempo e a forma como ele se relaciona com a lucidez. Tirando os oráculos que podem ser jogados num movimento especulativo, não podemos adivinhar o futuro. Essa é a contingência que se sobrepõe às demais contingências herdadas do passado e às que resultam da indeterminação da vontade dos outros. Sempre que recorremos à diligência para desenhar o mapa do destino, atropelamos a incógnita levantada pelo futuro. 

O passado é um cemitério abundante de erros de cálculo sobre o futuro. Por que não reaprendemos a degustar vagarosamente as várias camadas do presente?

Sem comentários: