22.6.26

Corre, corre, que ainda apanhas a tua própria cauda

Pond, “Skyworks”, in https://www.youtube.com/watch?v=g_sGuaVGmMs  

Os braços, como tentáculos de um polvo, manobrando dentro do mar para caçar as suas habituais presas. Assim era a atenção que o mundo moderno exigia. Mas, se o mundo era moderno e a exigência era esta, será que, na pré-modernidade, existir era mais fácil?

As provas não confirmavam esta hipótese. Não é preciso ser geógrafo para saber que viver noutros tempos podia ser uma aventura e que empreitadas banais, segundo os padrões atuais, podiam levar a vida de muitas pessoas. Já quanto à esperança de vida ser muito maior na modernidade, há quem conteste o seu significado (hedonistas; pessimistas; angustiados, numa base permanente ou episódica; misantropos que continuam a não saber colaborar com os outros).

Um sexagenário insurge-se contra as gerações mais novas. Acusa-as de desperdiçarem um tempo valioso que é pródigo na oferta de conhecimento. Num acesso de nostalgia, começa o lamento pela evocação do tempo em que tinham a idade dos jovens que são por eles renunciados: “ai, no meu tempo…”, antes de um contratempo qualquer interromper generosamente o lamento, antecipando o seu efeito útil (a inconsequência).

Outro sexagenário desimporta-se com o andamento dos anos. Só ouve música dos anos setenta, com algum esforço cataloga um punhado de artistas que publicaram no início dos anos oitenta. Estão parados no tempo, fecharam propositadamente a porta à modernidade. Em sua conta, não se pode dizer que estão reféns da nostalgia. À sua maneira, exercem uma modalidade atípica de misantropia – uma misantropia geracional. São eles que apressam o seu envelhecimento. 

O corte transversal dos tempos pressupõe que pessoas de diferentes gerações possam conversar entre si. Não é o que se vê por aí. As pessoas vestem fatos de amianto para serem à prova de fogo no diálogo entre gerações. Como ficou estabelecido (erradamente) que a uma geração corresponde um marco do tempo, os circuitos paralelos em que transitam diferentes gerações impedem a continuidade das eras. O tempo flui, isento de compartimentos ditados pelo Homem, que são artificiais. Para cada geração imune às demais, há sempre uma modernidade. Ela impõe-se como seu código de conduta, arrastando o tempo na inércia de uma convenção temporal – a modernidade (dessa geração) nunca mais acaba, a não ser quando se extingue o último representante dessa geração. 

Comparar diferentes marcos do tempo e argumentar a favor da superioridade de um deles é um exercício pueril. Os seus defensores querem demonstrar que uma geração (inevitavelmente a sua) é superior a outra qualquer com a qual se compara. Este exercício está condenado ao malogro: não haverá concordância da geração rebaixada, nem a pose triunfante da geração que reivindica os louros da vitória serve à sua objetiva superioridade. Só serve para cavar trincheiras fundas que impedem o diálogo entre as gerações. 

Todas estão presas à sua própria modernidade. Todas hão de encontrar argumentos para desvalorizar a modernidade que não seja sua. Mesmo que a sua modernidade seja prévia à modernidade contestada.


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