Johnny Marr, “Spin”, in https://www.youtube.com/watch?v=VqGsu-5jluw
A bota pesa muito. Um peso insuportável – a bota tem de ser descalçada para o pé não gangrenar, tão apertada está a bota que asfixia o sangue. Não interessa apurar se o número da bota não era o certo, de tão apertada que estava. É a diferença entre a gangrena do pé e as elucubrações especulativas tão do agrado de teóricos desligados da terra.
Sendo urgente a empreitada, é preciso aprender a remover a bota com cuidado. Este é um daqueles casos em que a precipitação é má conselheira. De tão depressa se querer livrar da bota tão apertada, o pé pode vir agarrado à bota, e nesse caso o problema do seu gangrenar estaria resolvido. Admitindo que não se quer prescindir de um pé, o manual de instruções de como descalçar a bota deve conter uma advertência em letras garrafais: “a precipitação pode causar danos irremediáveis ao pé a descalçar”. Para ajudar os que possam ter dificuldades hermenêuticas, em letras mais pequenas, e entre parêntesis, deve ser somado um esclarecimento: “precipitação não tem a ver com chuva”.
A boa diplomacia, uma arte de punhos refinados, serve de mnemónica. Os bons diplomatas não reagem sob a ponta da baioneta da emotividade. Digerem os acontecimentos, pesam os palcos alternativos, a constelação de efeitos que correspondem a cada cenário, outras variáveis que, sendo exteriores, não podem ser desprezadas. Pode demorar, mas a demora é o pano certo para não cair na armadilha da precipitação. Dos diplomatas não esperem reações intempestivas. Os impacientes nunca hão de entender os diplomatas.
Para descalçar a bota apertada, o método diplomático é o melhor. Se o incómodo dói tanto que tem o efeito de dissolver a lucidez, lá se vai o pé para pior. É preciso ser estoico: temperar a impaciência da dor, a impertinência do desconforto que amarrota todo o corpo, com a diligência diplomática que pondera criteriosamente todas as ações necessárias para remover a bota e repor o bem-estar. Nem que o vagar, a condição exigível para que a empreitada não fique comprometida a meio do seu curso, dite o adiamento da dor até que, com todo o cuidado, a bota esteja definitivamente descalça.
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