29.6.26

Pressentimento

Cabaret Voltaire, “Landslide” (live on KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=61uq0B8HW_Y

O mundo não tem esquinas. A luz só é entediante quando junho quase erradica a noite. Se houvesse arestas para talhar, elas seriam o verso onde se debruam os contratempos. Mas depois virá dezembro e a clepsidra será virada do avesso.

Se junho é o reverso de dezembro, as falas são as mesmas. Tirando os que laboram em conspirações (talvez porque lhes escapa a complexidade das coisas), as pessoas não deixam de ser quem são por ser dezembro ou junho. Como não se pode determinar se seria junho ou dezembro a corresponder ao padrão, perde sentido encontrar um padrão. Tanto pode ser dezembro quanto junho.

Mesmo quando tempestades medonhas desassossegam os espíritos, é sabido que não é pelas esquinas do mundo que o efeito se materializa; já foi decretado que o mundo não tem esquinas. As arestas são intrínsecas às pessoas, vivem nelas com as diferenças que representam a riqueza da condição humana. Se calhar, para uma pessoa é junho, para outra é outubro e para uma terceira é janeiro. Sem que se admita cobiçar a natureza de alguém.

O sangue de cada um é a sua bandeira interior. Não são as bandeiras artificiais que aquartelam as pessoas nas ciladas das nações. Não passa de um estereótipo que apequena o mar de diversidades que enriquece o Homem. 

Os corpos mudam segundo os ventos, as duas reações são diferentes porque não há duas pessoas que sejam clones uma da outra. A claridade de junho pode funcionar como um estampido dolorido para os que gostariam que fosse ainda (ou já) dezembro, como é celebrada por outros como se fosse o auge de um ano. 

Às vezes, o insólito anestesia os hábitos. Um eclipse no Verão pode ser o corpo estranho que se insinua temporariamente. A penumbra efémera desarruma os hábitos mecânicos que deseducam os corpos. Então sim, fica-se a saber que, afinal, o mundo tem arestas.

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