15.6.26

Não é preciso esconder os defeitos

Boards of Canada, “Hydrogen Helium Lithium Leviathan”, in https://www.youtube.com/watch?v=hGMIycYqvc4

Processo de cosmetização em curso: a maquilhagem abundante disfarça as fragilidades que convém ocultar. Já não falta muito para sermos, enfim, perfeitos.

Nem sempre se assume a condição humana. Dela faz parte a imperfeição. Estamos fadados para o exercício da rasura. Quando é ensaiado, o propósito é conceber alguém despido das suas fragilidades, entretanto identificadas e corrigidas. Mas os defeitos não têm de ser ocultados. Muito menos se impõe que sejam corrigidos ou superados, para corresponder ao intento da perfectibilidade. 

O erro crasso não é disfarçar os defeitos; é presumir que, depois de inventariados, os defeitos têm de ser disfarçados. Se a empreitada estivesse ao alcance de todos, a humanidade teria assegurado a extinção das fragilidades que a denotam como humana. O erro de disfarçar defeitos, ou – o que agrava a condição – de tentar corrigi-los, leva à desumanização em curso. As atenções estão desviadas para o processo que nos convence de que podemos estar a caminho da perfeição. Não pode haver maior anátema a abater-se sobre as pessoas.

O processo tem de ser virado do avesso. Os defeitos fazem parte das pessoas. Aceita-se que alguns, os mais pungentes, aqueles que podem dilacerar as veias por dentro e atirar as pessoas contra as asperezas de um pesadelo, possam motivar uma correção. São os defeitos reversíveis que não esvaziam a condição humana, que sempre esteve à margem da perfeição. Outros há que dispensam tentativa de cura. Estão entranhados, participam da fragilidade intrínseca. Ao querer reverter esses defeitos, contraria-se o húmus da dimensão humana: esses defeitos fazem parte da identidade da pessoa. Desfazê-los é falsear essa identidade. 

A humildade recomenda que os defeitos sejam assumidos. Sem acolher a desafortunada saga dos defeitos que podem ser virados do avesso pela simples ativação da vontade. Esses defeitos pesam toneladas. Fingir que têm a leveza das coisas que pesam uns meros gramas é adulterar o eu que as assim pressente.

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