James Blake ft. Lola Young, “Make Something Up” (live at Radio 1’s Big Weekend 2026), in https://www.youtube.com/watch?v=0qhdOUgPD7E
No entroncamento convergem todas as linhas que vêm de lugares diferentes e depois se afunilam na cidade grande. É como o rio grande, alimentado pelos rios pequenos que lhe são súbitos. Quando o rio grande espreita, no seu estuário largo, a desembocadura onde será recebido pelo mar, poucos se lembram da rede capilar de rios periféricos que também estão alojados na barriga do rio grande.
Somos assim, entroncamentos. Às costas trazemos influências variegadas. Contrariando os ascetas que fecham as pessoas em categorias herméticas, como se um português fosse cem por cento português e assim se negasse validade à constelação de influências que são exercidas no palco da globalização. As fronteiras, cada vez mais porosas, não travam a importação de influências. Da mesma forma que não impedem a exportação de influências. Podemos ter uma identidade maioritária que não corresponde à que está averbada no passaporte. Sem sermos apóstatas e a heresia dar lugar à exprobração ou, em caso limite, à anulação da nacionalidade.
Nesta feitoria do tempo em que somos pastores de todas as linhas que convergem num certo local (aquele em que nos situamos), defender os briosos pergaminhos de uma nacionalidade é uma estultícia, como se ainda fosse possível alguém jurar a pés juntos que em si circula um sangue cem por cento feito de portugalidade.
O problema começa no conceito: o que é a portugalidade? Se os procuradores da grandeza histórica avocam a circunstância de termos trazido mundo aos mundos que colonizámos, esquecer-se-ão da miscigenação que resultou das hormonas irrequietas dos colonizadores? Esquecer-se-ão de que, atrás dessa história de expansionismo, fomos cultivando a crioulização que resume o espírito do entroncamento: por cada pé colocado em diferentes geografias, descobridores incapazes de moderar o desejo carnal foram expoentes da mistura de sangues e de cores e de culturas. Fomos precursores da miscigenação que desmente as teorias da pureza de sangue dos que se abandonam à ignorância da História. Essa ignorância é um atentado contra a portugalidade, da qual se dizem lídimos embaixadores.
Temos sangue múltiplo, as suas várias origens alinhadas numa variedade de linhas que convergem num entroncamento que é a síntese de uma pessoa. Trazemos sangue berbere, japonês, pan-africano, judeu, índio, indiano em doses diferentes. Se há pureza na portugalidade, ela está no entroncamento onde convergem muitas ou todas estas fontes de onde dimana o sangue de que somos portadores.
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