Angine de Poitrine, “Fabienk” (live at Later...with Jools Hooland), in https://www.youtube.com/watch?v=qsCdPxdvu98
“As inquietações sobre a oscilação dos números da literacia, sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA), sobre a mil vezes anunciada crise da leitura, merecem uma discussão muito séria, com números e factos reais, e com o envolvimento de todos nós. (...) A leitura é um dos pilares de uma sociedade democrática, informada, preparada para os desafios do tempo e uma ferramenta contra a obediência a algoritmos e a velocidade das novas tecnologias. (...) Uma comunidade que não valoriza a leitura, a partilha de histórias e de conhecimento, é uma sociedade que se empobrece a si própria. Que escolhe empobrecer, que escolhe substituir o debate de ideias pela obediência a algoritmos, que escolhe avelocidade contra a ponderação e a experiência humana, que escolhe a aceitação contra a liberdade.”
Cronistas que de si têm uma imagem de muita seriedade e intelectuais a esmo não deixam órfão o tema (para eles candente) do carisma dos líderes. O carisma não é apenas uma virtude granjeada através da personalidade de um líder. Os discursos também cimentam o carisma que vai sendo capitalizado em acontecimentos mais ou menos solenes que exigem oratória dos líderes. Estes órfãos de líderes políticos carismáticos defendem que a pobreza confrangedora dos discursos, e as platitudes que os preenchem, são o anticlímax do carisma exigível a um líder político. De acordo com este raciocínio, estamos órfãos de líderes carismáticos porque eles estão a léguas de discursos arrebatadores que consigam motivar e mobilizar os cidadãos.
Tenho duas objeções a esta argumentação. Em primeiro lugar, se estivéssemos no lugar dos líderes que, por dever de função, têm de perorar sobre tudo e mais alguma coisa, o que teríamos a dizer de diferente? Retomo a citação que abre este texto: teríamos capacidade para ir além das banalidades ali recenseadas? Se nos pedissem a opinião sobre a importância da literatura, e mais ainda, da leitura (dando a entender que a primeira é meramente instrumental à segunda, o que daria para uma contestação à parte), teríamos rasgo para alinhavar um raciocínio diferente? Conseguiríamos inventariar outras virtudes associadas à leitura? Perante o advento da IA, seríamos alheios ao pensamento binário que apresenta a leitura e a literatura como alternativas à banalização atribuída à IA?
As interrogações não ficam por aqui. Se admitirmos o sentimento gregário que nos catapulta para deveres de participação na comunidade (a cidadania), alguém discorda de que “todos” temos de estar envolvidos no combate à crise que afeta os hábitos de leitura? Duvidamos que o empobrecimento da sociedade, pressentido na capitulação perante a IA e no modismo dos algoritmos, determine uma opção pela “velocidade contra a ponderação e a experiência humana, (...) a aceitação contra a liberdade”? A menos que os titulares de importantes cargos públicos que corporizam a soberania tenham o rasgo de um poeta ou sejam visionários, o que de diferente teríamos a dizer se nos pedissem para escrever o próximo discurso de sua excelência sobre o tema em apreço?
O que me traz à segunda objeção: (ainda) precisamos de líderes carismáticos? É assim tão grande a sede de carisma entre os que nos dirigem que ficamos órfãos caso eles e elas tenham um elevado défice de carisma, visível (entre outros indícios) na pobreza do discurso que depressa tende a adormecer os cidadãos ouvintes? Talvez um dos sinais da modernidade nos leve a dispensar a tutela paternalista de grandes figuras que pertençam a um escol como exigência de qualificação para os altos cargos públicos.
Para se consumar um dos dogmas da democracia (a mirífica igualdade), já não precisamos de líderes que ascendam a um altar inacessível ao comum dos mortais. Os representantes devem ser à imagem dos representados. A melhor forma de concretizar esse requisito é eleger titulares de cargos públicos que sejam como nós. E, como somos medianos (ia-me descaindo o raciocínio para “medíocres”, mas corrigi a tempo), não é estranho que escolhamos quem seja à nossa medida.
Uma democracia com um travo elitista é uma contradição de termos numa era em que, para o bem ou para o mal, nos convencemos de que estamos ao mesmo nível daqueles que outrora se encontravam num plano superior. Fosse devido às suas capacidades intelectuais (os intelectuais e os académicos, cada vez mais desvalorizados), fosse pelas capacidades catárticas que atraíam multidões (a vulgarização da igualdade trouxe à terra essas figuras, que entraram em vias de extinção).
Se os que nos dirigem têm o mesmo carisma que nós, por que lhes exigimos discursos que se desprendam das mesmas banalidades em que habitualmente medramos? Esta exigência é injusta para os titulares de cargos públicos, pois pede-se-lhes que sejam aquilo que, enquanto simples cidadãos, nunca foram. Para o bem de todos – deles, para que não sucumbam às elevadas exigências que podem não conseguir atender; e para nós, para que não tropeçamos em mais uma desilusão – convém baixar as expetativas.
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