Iggy Pop, “The Passenger”, https://www.youtube.com/watch?v=-fWw7FE9tTo
As almas não prescrevem. Os idiomas são sempre traduzíveis. Os dias sucedem-se, com ou sem aura a determiná-los como penhores das memórias. As vozes voam, efémeras como o são, efémera como é a atenção votada às vozes que se anunciam como clepsidra aumentada. De todos os luares, não há um que se distinga. Eles emanam todos da mesma lua.
Há janelas que têm vergonha do fora. Encerram-se em fortalezas imediatas, como se fossem albinos que fogem do sol. Cristalizam a anomia própria de quem se exila no desconhecimento. Talvez tenham medo de que o conhecimento trazido de fora seja um sismo que faça tremer as fundações. Talvez tenham medo dos escombros que o abalo sísmico promete, não querem ser destinadas a escombros. As janelas apequenam-se e exercem a sua soberana censura sobre o conhecimento exterior.
Cabe-nos o papel de embaixadores do conhecimento. Temos de ser os diligentes operários que primeiro convencem as janelas a deixarem os medos, consequentes ou não, por conta do passado, a deixarem o medo de se exporem ao exterior. Caso a persuasão seja limitada e as janelas teimem em continuar fechadas, cabe-nos o dever de as convencer à força. Esburacá-las, se preciso for, para que uns iniciais lampejos de conhecimento atuem como a vacina que destoa da teimosa propensão a recusar o conhecimento exterior. À medida que as resistências das janelas se esbatem, compete-nos completar a função. Somos embaixadores das virtudes do conhecimento à vez com engenheiros que civilizam as janelas timoratas.
Às janelas que não se abriam, devemos contar um conto idílico: o conhecimento, mesmo aquele que à primeira vista soa como uma ameaça aos alicerces que se embebem nas estruturas, é uma dádiva. Às janelas que não se queriam abrir, temos de as convencer de que foram feitas para serem portadoras do conhecimento que vem de fora e quer entrar além da vidraça que isola a casa.
Se as janelas teimarem em continuar fechadas, devem ser acusadas de um crime contra a humanidade.
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