24.9.26

“Eu sou o meu próprio herói”

Róisín Murphy, “Narcissus”, in https://www.youtube.com/watch?v=88p6AwgZNaw

Esperava na sala de estar pela hora a que tinha marcado mesa. Mesmo ao lado, tão perto que não precisava de me esforçar por ouvir a conversa que ia acontecendo, uma figura pública conversava com a sua convidada. A senhora era muito mais nova e estrangeira. A conversa decorria em inglês. 

Não era bem uma conversa. Era um monólogo da figura pública, que fazia a questão de impressionar a convidada. Durante os quinze minutos que esperei até ter chegado o alívio de já ser a hora a que tinha marcado a mesa para o almoço, fui testemunha de uma versão abreviada do curriculum vitae da figura pública e de algumas inconfidências que entravam na geografia política. Ele não investiu no decoro nem poupou nos encómios a si mesmo enquanto desfiava o estatuto académico de tão grande visibilidade pública, nacional e além-fronteiras. Se aquele fosse o dia nacional da modéstia, ao famoso anfitrião seria averbada falta de comparência. 

Os minutos passavam sem escutar a voz da convidada, tão avassalador era o monólogo. Quando o senhor entrou em revelações políticas impróprias, perguntei-me se seria invisível, ou se tinha ar de quem não domina o idioma inglês, ou se, pura e simplesmente, a pública figura estava tão encantada com a descrição que de si mesmo fazia que nem deu conta que ele e a convidada não estavam sozinhos na sala de estar do restaurante. 

Sendo tão pública e proeminente, da personalidade em causa qualquer pessoa medianamente informada sabe quem é e porque se notabilizou na sua ciência. Talvez por ser estrangeira e não estar a par das proezas científicas registadas no curriculum vitae de personalidade tão eminente, o senhor sentiu-se na obrigação de a pôr ao corrente para que as devidas genuflexões fossem feitas. Ou então, era apenas o momento, possivelmente um entre tantos, em que a figura pública sentiu necessidade de ser ver ao espelho para contemplar tamanha grandiosidade. 

Ao saltar de assunto para assunto, sempre com ele como centro das atenções dos episódios por si narrados, a certa altura confidenciou que tinha presidido a uma comissão que autorizou a abertura do curso de Medicina, pela primeira vez, numa universidade do interior do país; a si (e, já agora, aos demais membros dessas comissões) devia ser creditada a descentralização do ensino universitário de Medicina. Revelou que o processo esbarrou em alguns contratempos, pois a universidade não conseguia cumprir todas as exigências legais. Mas o primeiro-ministro da altura telefonou e convenceu-o a ser flexível, porque o mais importante era o curso de Medicina abrir pela primeira vez numa universidade do interior. 

O que mais me impressionou foi a figura pública confessar que tem sempre tantas demandas científicas entre mãos (ler “papers”, escrever “papers”, orientar teses de doutoramento dos discípulos, comparecer em congressos onde é a estrela da companhia, etc. e tal), que já não lê um livro, “daqueles de literatura, romances, está a ver?”, há mais de trinta anos. 

 Eis o retrato de uma personalidade que é um homem pequenino. 

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