23.9.26

Legítima defesa, ou a pretexto do contexto

Beck, “Run Away”, in https://www.youtube.com/watch?v=qWUABdLVW1c

O coldre aquecido pela matéria estival ganhou vontade própria e fez troar o revólver ao acaso. A bala trespassou o vento quente e alojou-se numa vítima que depressa ocupou o lugar de inocente – e não são todos, inocentes, os que se ajustam ao dardejar de um revólver, a menos que sejam carne para canhão assanhada a meio da legítima defesa? Esvaída em sangue, a vítima não disse mais nada. Com o sangue torrencial foi-se o viver que tutelava. Esgotou os derradeiros arfares e silenciou-se sob o olhar de quatro testemunhas acidentais.

Na vitrina do medo, onde o mundo se liberta da apóstrofe do desmundo, as balas exibem a força unilateral que não confirma a teoria segundo a qual vivemos imersos na bonomia de ser gregário. Ainda não houve quem tivesse coragem de contar uma história para desmontar o mito de vivermos em conjunto porque somos gregários: vivemos uns com os outros, convivemos em base recíproca, porque é útil que assim seja. 

As vigas têm uma parte submersa. As marés não a deixam à mostra. Se mandassem mergulhadores e fotografassem a parte submersa das vigas, saberíamos que as vigas estão podres na sua parte mais importante. Se elas forem vítimas da corrosão, o chão a que dão amparo ruirá. De que adianta ajuizar o que está sob a égide do olhar se a segurança se filia na parte oculta das traves que são pouco mestras? Diríamos, com a condescendência própria de quem convoca para si o perdão fácil, que ninguém é culpado por a parte apodrecida das vigas não estar sob o escrutínio do olhar inquisidor. As mortes que houver por lamentar não terão sido vítimas de um acaso. 

Pesam os contextos no apuramento exigível. Mas os contextos não têm existência própria, nascem de contextos outros onde se apuram responsabilidades, por ação ou por omissão. Se um coldre ateia com o calor excessivo balas perdidas e assim se arrebata uma vítima sem culpa, a culpa será endossada ao agente que carregava revólveres no coldre. 

Não se diga, a pretexto do contexto, que foi em legítima defesa, se o estio tem direito a ser estação no seu calendário.

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