20.3.18

Um contratempo não é contra o tempo


Aldous Harding, “Imagining My Man”, in https://www.youtube.com/watch?v=xE-A0cNSLmc    
Saíram do bar esconso. Já não estavam no seu estado normal. Despediram-se friamente – tão friamente como aconteceria umas horas antes, quando eram desconhecidos e as normas de conduta não obrigam nem a um discreto aceno de mão. O revolucionário não estava tão mal. Viu o ecologista a ir em sentido contrário – que, por sinal, era o oposto lugar onde tinha deixado o Porsche danificado – e teve a certeza que cambaleava muito mais. (Podia ser uma certeza desfocada: num acesso de lucidez, refreou a impressão ao admitir que quando se está ébrio, há a necessidade de identificar alguém que esteja pior.) No parapeito do miradouro, estava um homem. Sozinho, sentado no parapeito. Ao revolucionário não ocorreu que o homem podia estar a tentar o suicídio. A embriaguez não caucionava tão elaboradas conclusões.
O homem era novo, no dealbar dos trinta. Atirava o olhar perdido no longínquo horizonte. Possuído por uma tremenda melancolia. Acertava as contas com essa melancolia. Às vezes, as veias em combustão arpoam-se à temporária solidão, a condição imperativa para o acerto de contas com os pesares que não se desejam duradouros. Não via ninguém nas suas costas. Não intuía que quem passasse pudesse interpretá-lo como em pleno ensaio de suicídio. Também não importava. Não importava, nunca importou por aí além, o pensamento dos outros, o seu julgamento. Muito menos agora, que a emenda da tristeza estava a ser orquestrada. Se alguém o tentasse deter, convencido que procurava o suicídio, faria de conta que sim. Só para o corajoso e altruísta interruptor do suicídio ficar convencido que interrompera um suicídio, convencido da contundente boa ação do dia.
Sentia-se profundamente triste. Se tentasse inventariar as causas, provavelmente era capaz de amontoar um bom punhado. Não perguntassem os detalhes: não conseguia fazer esse inventário, como se fosse preciso tomar corpo de um elenco dos vários contratempos que deram corda à melancolia. Era mais fácil responder que eram muitas as razões da melancolia, mas que não lhe apetecia fazer o rol para não mergulhar nas raízes ainda mais fundas da melancolia. Os que se incomodam com os contristados militantes, insurgir-se-iam, protestando contra os habituais tristonhos apenas porque se cansam de não o serem. Era indiferente: era o que os outros pensam.
Naquele dia, talvez como auge que o levou ao parapeito do miradouro para expirar tanta fartura de misantropia, a gota que fizera transbordar o copo foi uma imagem tão frívola, tão irrelevante para a condição humana e que, todavia, nele causara um profundo efeito sísmico. Passou numa rua, cortada em metade das faixas de rodagem, porque os trabalhadores da câmara municipal terminavam o abate de um plátano certamente centenário. O largo tronco, já de uma madeira esbranquiçada, era a certidão da decadência irremediável do plátano. “Temos de acreditar nos peritos”, disse a si mesmo, para se convencer que as árvores, que morrem de pé, também têm suas exéquias. E, todavia, não conseguiu reprimir a forte imagem, a devastadora imagem, dos despojos do plátano, os ramos cerrados espalhados na estrada, sem critério, um mero toco da altura de meia pessoa, o que sobrava de uma árvore que ostentara a sua sumptuosidade quando irrompia pelo céu, do tamanho de vários homens juntos uns em cima dos outros. E os homens da câmara municipal começando a arrumar o material, na indiferença da árvore abatida, como se já fosse (como era) um resto sem utilidade.
A morte é a maior das melancolias. Se alguma vez tivessem passado ideias suicidas pela cabeça, esta imagem da morte era dissuasora do suicídio.

19.3.18

E se o espírito de contradição não fosse uma provocação?


Ezra Furman, “Restless Year”, in https://www.youtube.com/watch?v=NDOenFQazrA    
Na mesa ao lado dos dois defenestrados, o tatuador esperava por alguém. Estava absorto, apenas interrompendo esse estado quando dava pequenos goles na bebida. Não ficou indiferente à conversa. Apesar de não gostar de se intrometer em conversas alheias, e dar confiança a estranhos não ser seu timbre, ofereceu um palpite quando um dos homens jurava a pés juntos que não voltava a ser revolucionário.
- Tenho estado a ouvir a vossa conversa (disse, suscitando a perplexidade imediata dos outros dois, que não contavam com a intrusão). Tenho a impressão que os senhores estão deitados nos braços do desdém. Lá no fundo, ainda não aceitaram o despejo das fileiras por onde transitaram. Vou ser cru: se fosse dada a oportunidade, e houvesse um milagre que fizesse as pazes, iam a correr de braços abertos para quem vos renegou, para quem renegam.
 Os outros dois, toldados pelos copos que já iam a caminho do excesso, não se importunaram com a provocação do tatuador. Se estivessem sóbrios, teriam, pelo menos, questionado a intromissão na conversa. O revolucionário descamisado interpelou o tatuador:
- Até parece que tem o senhor algum conhecimento de causa.
O ecologista renegado juntou-se à conversa:
- E mesmo que tenha conhecimento de causa, não há dois casos iguais. Como pode usar uma bitola ao acaso para nos aferir?
O tatuador, impaciente com a demora da sua atrasada companhia, disparou secamente:
- Este é daquele casos em que se vê à distância a patologia.
- Posto nesses termos, é um ultraje. Por quem nos toma?, reagiu, também desabridamente, o ecologista renegado.
- Se soubessem...já foram tantas as personagens recalcadas com que me cruzei, e demoradamente.
- Mesmo assim – ripostou o revolucionário descamisado – como pode extrapolar com tanta ligeireza? A menos que seja um perito em comportamentos humanos; e mesmo assim, a ciência não é exata, abre-se à contestação dos diagnósticos.
O tatuador levantou-se e, sem pedir licença, juntou-se aos outros dois homens, sentado entre eles. Só voltou atrás por um momento para recuperar a caneca de cerveja que ainda ia a meio. Mais calmo, acrescentou:
- Se a autoridade dos meus argumentos depende dos pergaminhos, aqui os apresento: tenho estudos de antropologia. São suficientes as credenciais, ou têm-me como mentiroso?
- Deixemo-nos de hostilidade. Não posso deixar de interiorizar o desafio presente nas suas palavras iniciais. Pergunto-me: se houvesse um armistício com os meus antigos camaradas ecologistas, e se eles aceitassem que eu continuava a ser dono de um Porsche (a minha linha vermelha), regressava ao grupo?
- É interessante a formulação – disse o revolucionário descamisado. Eu não reagi desse modo. Julgo que há uma explicação: tu foste defenestrado há menos tempo, ainda vives as dores da exclusão; eu fui expulso há mais tempo e, confesso, já nem lembro dessa pertença. Por isso, nem prestei atenção ao desafio do amigo cabeludo e tatuado.
O tatuador elaborou, em defesa do seu argumento: Continuo a dizer que até o senhor, que parece tão relutante que não admite as feridas que o meu desafio abriu, repensava se houvesse a oportunidade de reconciliação. As ideias que formatam uma pessoa não se renegam. Nem que sejam alguns anos os passados desde a – como disse? – defenestração.
O ecologista renegado sentiu-se sitiado pela hesitação do pensamento. Ao contrário, o revolucionário descamisado exteriorizava uma convicção firme. O tatuador adensou a provocação intelectual:
- Isto não tem nada a ver com o tempo de despertença. Tem a ver com subjetividade. Com a firmeza das convicções entretanto abandonadas, ou pelo menos metidas em hibernação. O senhor (virando-se para o revolucionário descamisado) não estaria tão seguro dos alicerces das suas ideias. Quer-me convencer que dantes era revolucionário e agora transfigurou-se em burguês? Que todos os sedimentos ideológicos foram extintos? Não creio que esta negação seja possível – a menos que tenha caído em auto negação.
O revolucionário descamisado mostrou incómodo, alguma exaltação física que pressagiava uma altercação iminente. O ecologista renegado, em mal conhecendo os outros homens, mostrou-se apaziguador.
- Vamos mostrar respeito uns pelos outros. O senhor das tatuagens, que não nos conhece de lado nenhum, está a passar dos limites.
- Não seja por isso. Deixo-vos entretidos com essa mágoa terrivelmente destrutiva.
Ato contínuo, levantou-se, pagou e saiu do bar. O silêncio durou alguns minutos. Os necessários para o revolucionário descamisado se recompor. O ecologista renegado concluiu:
- Esta gente que se julga um oráculo dos meandros dos outros também me tira do sério.

16.3.18

O duo de defenestrados


Mogwai, “I’m Jim Morrison, I’m Dead”, in https://www.youtube.com/watch?v=5EfuLuN0VXs    
O homem instruído, ambientalista defenestrado pelos da causa, estava furioso. Alguém riscou o automóvel de uma ponta a outra. Tinha ali reparação dispendiosa. Nem era isso que interessava – afinal, agora o dinheiro era a rodos. Estava furioso com a vingança – só podia ser vingança de um dos antigos correligionários, incapazes de perdoarem o desvio capitalista, a heresia. Enquanto vociferava impropérios audíveis, o erudito entretanto órfão de referências (que não fossem os hábitos burgueses que rimavam com prazeres proibidos pela moral católica e pelos da sua causa) aproximou-se, interessado em perceber o que acontecera.
- É preciso ter azar. Quem terá sido a avantesma que fez semelhante despreparo?
- Soubesse eu, soubesse eu. Ao menos sabia a quem tinha de ir às trombas.
- Não é caso para menos.
- Um homem não pode ter as suas extravagâncias. É o que digo, repetidamente, para me convencer que não cometi nenhum crime ao comprar este carro.
- Ah! A soturna inveja!
- Não é só isso.
- Esclareça-me.
- Até há algum tempo andei militante da causa ecológica. Era respeitado. Fazia parte do escol dos ideólogos. Do nada, caiu-me nos braços uma herança avantajada. A primeira compra com o dinheiro foi este carro. Quando os meus camaradas souberam, fui expulso sumariamente. Desde então, recebo ameaças anónimas. Chamam-me vendilhão e outras coisas que o pudor impede de reproduzir. Tenho a certeza que os danos no carro foram causados por um membro da causa ecológica.
- Sei bem do que fala. Já passei por defenestração idêntica.
- Não me diga! Também lhe aconteceu ser beneficiário de uma herança com que não contava?
- Oxalá tivesse sido assim. Hoje posso dizê-lo, já que fui defenestrado e não importa o que os meus camaradas julgam sobre as palavras que digo ou que escrevo.
- Também foi saneado sem direito a contrapor a acusação?
- O meu delito foi parecido com o seu, salvaguarda a diferença de poder de compra, pois ao meu regaço não veio a fortuna de uma herança. Tive desvios inadmissíveis para os meus camaradas de então. Vícios de consumo, digamos, burgueses. Quando descobriram, encostaram-me à parede. Fui vilipendiado e saneado, sem direito a contestação.
- Não andava pelos meios ambientalistas. Não me lembro de ver o seu rosto por lá...
- Não, não. Era coisa mais dura, mais política, subversiva. Éramos revolucionários de cepa tradicional, sem as concessões que estão na moda.
- Agora que me passou a febre da militância, e talvez por ter sido ostracizado, faço perguntas que dantes não ensaiava – não sei se também lhe acontece. Por exemplo: como pode a militância subtrair a vontade individual, quando alguém tem um desvio e se presta à defenestração sem defesa possível?
- Senti isso na pele. As interrogações que começaram a aparecer depois de terem fechado a porta na cara. Não esperava contemporização, se descobrissem os meus desvios. Sempre foi um grupo monolítico, intolerante, radical. Mas o que me causa espécie é eles protestarem contra o sistema, sendo uma das acusações a intolerância à diferença, e depois serem os mais expeditos algozes da intolerância no seu seio.
- E, todavia, não fica uma certa impressão de orfandade, depois de termos sido atirados borda fora?
- Ao início, com grande probabilidade. Assim como assim, foram anos a fio de lealdade e de ideais-esteio. Não se desliga da carne da noite para o dia. Depois acaba por passar. Já percebi que sou pária (entre os que outrora foram meus correligionários) há mais tempo. Acaba por passar esse deserto que soa a orfandade. E sobejam apenas memórias encardidas, as manipulações dos gurus, a desfaçatez, a coação da vontade, a entorse psicológica de tudo se legitimar pelo “bem maior”. Não sobra, sequer, arrependimento.
- O que sobra, nesta altura, é uma fúria imensa. Era o que mais faltava deixar-me vencer por estes papalvos. Querem que deixe de andar neste carro. Enganam-se. Nem que me custe o dinheiro que vai custar repará-lo. As vezes que for preciso. Não me dobram o braço.
- Assino por baixo. Era o que mais faltava serem eles a mandar na nossa vida.
Os dois homens continuaram a trocar mágoas e identidades renegadas ao jantar, a convite do dono do Porsche. Seguiram para um bar nas imediações, numa subcave lúgubre, onde o fumo rastejava junto ao teto e os clientes tinham uma aparência macilenta. Um ambiente carregado. A condizer com dois homens que, sem o admitirem, pareciam reféns da urgência em aplacar a defenestração de que foram vítimas.