5.3.12

O franchising da revolução (capítulo XVII)


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A urgência de ação metia o dente nas insónias das cabeças pensantes da revolução. A ninharia dos impostos, mais a secura em que o país fora posto pela coligação de conspiradores internacionais, exigia medidas ostensivas. Era isso ou a erosão de todo o processo revolucionário. O pior seria a deceção do povo: tantas promessas, tanta fé depositada na revolução, para os revoltosos decaírem na inépcia.
Tendo percebido que não podiam contar com a generosidade dos outros países (eles não queriam apoiar um pária), nem com a afluência de tributos ao erário público (ricos eram espécie em extinção), viraram-se para a alternativa de ação. Sabiam que a sobrevivência do regime dependia da sua exportação. Estava fora de causa serem uma ilha cercada pelos tubarões do grande capital. Discutiram os passos a seguir naquela reunião anárquica em que ninguém ordenava e todos falavam em sobreposição. Discordavam do método. A linha dura, dos mais velhos, ainda cultores dos métodos estalinistas que regressavam depois de limpa a poeira, queria brigadas violentas capazes de roer os alicerces dos inimigos que persistiam no capitalismo que exauria os povos. A linha que se expurgara de radicalismos, dos mais novos e letrados em universidades estrangeiras, propunha um método inspirado em Gandhi. Resistência pacífica, a força do protesto, as virtudes da paciência.
Era uma discussão acalorada. Os mais velhos eram os mais exaltados. Arroxeavam quando os gritos faziam tremer as vidraças ao darem de caras com a fleuma dos moderados. A certa altura acusavam-nos de terem no subconsciente alguma comiseração pelos países de onde queriam depor o capitalismo. Diziam entre dentes, sem coragem para os fitar nos olhos: “vê-se que andaram por lá a estudar...” Os mais jovens não davam parte de fraco. Voltavam a chamar a persuasão dos argumentos, descontando as provocações dos intolerantes. Já a madrugada ia adiantada quando se fez a votação – de braço no ar, como mandam os costumes da ideologia.
Ganharam os moderados. Ficaram com a tarefa de pensar na maneira de enviar para o terreno as brigadas de provocação pacífica. Alguns dos mais velhos, cansados pelo sono e derrotados pelo voto, anunciaram que se iam afastar. “A revolução” – lamentava um deles enquanto uma lágrima furtiva se desprendia do olhar embaciado – “não é para meninas. Não é uma coisa de meias-tintas. O povo merece métodos expeditos, violentos se preciso for.
O processo revolucionário entrava noutra fase. Aburguesava-se.

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