28.10.13

Árvore sem pressa

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A grande, majestosa árvore do tempo impressionava pelo porte. Mesmo quem a conhecia de dias a fio por ela passar. Distinguia-se das demais. O tronco era singular. Um diâmetro que não deixava lugar a abraços de um humano, tamanha a circunferência que era seu perímetro.
Talvez pela firmeza do ancoradouro, a majestosa árvore não vacilava nem quando tempestades desembestadas arrimavam a terra. Podia ventar o que ventasse, podia caudalosa ser a chuva, podiam relâmpagos tonitruantes ameaçar o esquartejamento da árvore, que ela não se intimidava. As da sua igualha, mas de porte singelo, torciam-se com o vento enfurecido, despojavam-se de folhagem quando os primeiros laivos outonais se colavam ao calendário. Ela parecia viver em hibernação. Eram precisas algumas semanas, já as vizinhas árvores estavam quase nuas, para as primeiras folhas se tornarem caducas. Nela, o outono esbarrava numa teimosia de quem se oferecia como matriz do arvoredo circundante. Era a rainha mestra da pequena amostra de floresta enxertada no meio da praça, contradizendo a frieza do cimento e do asfalto e do vidro resplandecente que se irmanavam com o granito e o mármore dos edifícios mais antigos, mais sumptuosos.
A árvore majestosa fazia par com os edifícios mais antigos, os de traça antiquada, com as linhas pós-barrocas da arquitetura que cuidava de uma talha detalhada. A grande, majestosa árvore só deitava o olhar a esses edifícios. Conservadora, desestimava a modernidade. Tratava-a, à modernidade adjacente, com a sobranceria que uma rainha-mãe dedica às súbditas. Não que as desprotegesse, que as árvores das imediações encontravam abrigo na ramagem duradoura que pendia dos braços musculados que ramificavam, abundantes, da árvore centrípeta.
Mas tudo tem o seu contraponto. Nada que seja miradouro da natureza é apenas uma constelação de cintilações admiráveis. Quando o calendário se virava do avesso e a primavera afugentava as sobras do inverno, já as árvores mais jovens vicejavam nos rebentos de folhagem que irrompiam dos galhos ainda frígidos, a árvore centenária continuava muda de folhas por umas semanas a eito. E nem assim deixavam os seus ramos desnudados de abrigar as árvores que ainda vogavam na adolescente idade.

Aquela árvore não se cansava de ser matrona da praça. Houve artistas que a consagraram nessa condição. Pelo menos, um pintor e dois poetas. Esse era o maior reconhecimento a que a grande, majestosa árvore dava importância.

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