24.3.21

Palavras de cristal

Ólafur Arnalds, “nyepi” (Live in Munich), in https://www.youtube.com/watch?v=Quum8qoG7v0

Sou procurador das palavras que se enfeitam num pranto. Decanto-lhes as lágrimas e fico com elas, secas, nas mãos. Como se de um pedaço de carne fosse preciso repatriar a gangrena, até que ficasse pura outra vez.

Sou a moldura para as palavras ciciadas no mapa depois das léguas andadas. Sem precisar de contar todos os minutos atravessados até ao lugar longínquo que tenho de antemão. Coabito nas palavras irredutíveis. Disponho-as no tear onde se alinham as intenções. Deixo-as à vontade da palavra final.

Sou a ilibação das palavras proscritas. Desenho-as com os dedos ensanguentados. Os olhos marejados abrem-se ao vento, leem as estrofes vindouras com o penhor do entardecer que se arrasta num crepúsculo demorado. Pego num papel e bosquejo umas palavras que se combinam num sentido algébrico. Hão de ser poesia.

Sou a levedura que dá cobertura ao fingimento das palavras. Acentuo a exposição complexa nos múltiplos sinais que se extraem ao sentido das palavras. Fujo do seu sentido literal, essa simplicidade castradora. Deixo que as palavras se amotinem contra a superficialidade do seu sentido comum. É sob o fino verniz que se escondem os lençóis freáticos de onde fruem as palavras que se sobrepõem aos corredores estreitos onde habitam as frivolidades.

Sou o tutor destas palavras de cristal que derrotam a hibernação. Não fico barricado à espera que as palavras me ensinem o seu lugar. Sou eu, do mais alto da ousadia em que me teço, a destinar-lhes lugares e tempos e modos, antes que um atlas contumaz tome conta da empreitada. Espero que a coesão das palavras de cristal desponte na medida inversa da sua aparente fragilidade. Até que as arrecade num promontório austero que não tem medo do vento excessivo e o põe em sentido.

Sou eu que apascento as palavras de cristal. Até que, entronizadas num espelho frugal, sejam a caução do vocabulário escondido.

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