3.2.23

O fraque (short stories #417)

REM, “Bittersweet Me”, in https://www.youtube.com/watch?v=-R2hvKDFLHE

          Não farás cerimónia: os solenes atos que te encantam são apenas uma encenação. Sob o verniz, nada. E, contudo, insistes no fraque. Nunca te perguntaram se o fraque não é uma superstição? Se arrotares sem ser às escondias, és vilipendiado? Não é legítimo esperar que todos arrotem? Dirão (e tu, em coro, com eles dirás): mas as pessoas coíbem-se de o fazer à frente de outras pessoas, assim é a intendência da boa educação. E eu percebo. O fraque é o adereço das convenções. Um código de vestuário, a menos que da transgressão sejamos partidários. O fraque é uma perplexidade. Sentam-se os mecenas das convenções nos seus altos tronos e inspecionam, altivos, as imediações. Têm olho de lince (diz-se). São eles que atestam o fraque. Adotam os manuais de instruções para os que não se sufragam pela rebeldia. Procuram olhos marejados. Porque os olhos marejados tentam esconder o sal sob o qual se disfarçam os conspiradores prontos a torpedear as convenções. Contra eles, um exército de homens e mulheres de fraque. Devidamente instruídos. Delidos, sem saberem. Como se fossem autómatos, maquinalmente executando os comandos dos mecenas das convenções. Não fossem esperadas guerras sanguíneas, o palco não estava montado para esse despreparo. Os fraques procuravam invadir o dia como se fossem a assinatura do crepúsculo. Se o seu sangue não fosse alheio à adrenalina, podíamos ver rostos que não eram impassíveis. Mas os fraques são apenas um pedaço de roupa sem corpo por baixo. Fantasmas não inventariados. Os demais não se importam com os fantasmas. A sua improcedência é a sepultura que os espera, perdidos num labirinto que não cobra dívidas passadas. Sabes, o fraque está sozinho. Não queres a companhia dos outros fraques. Pobre do fraque, que não sabes que estás condenado ao mesmo fim das vítimas que queres arregimentar. Serás a tua própria vítima.

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