13.3.24

Bandeira amarela

Yves Tumor, “Kerosene!”, in https://www.youtube.com/watch?v=YnZLqtNXbAM

O vento heterodoxo descompôs o mar e ele subiu à linhagem de mar alterado. Como se estivesse embriagado e, sem juízo, pusesse em causa a segurança das pessoas que estavam na sua orla. O mar estava a pedir a bandeira amarela. Era preciso avisar as pessoas: andava um perigo a marear a água e as pessoas podiam ser vítimas do mar tumultuoso.

A bandeira amarela subiu pelo mastro e ficou a ostentar a pose grave perante o mar desassossegado. Não se sabia das intenções do mar – não se sabia se o mar queria tomar alguém como refém, se queria apenas mostrar as credenciais de quem assusta os que não se atemorizam e podem perder a vida às mãos do mar. A bandeira amarela estava equidistante entre as pessoas no areal e o mar. Firmou um cordão sanitário e as pessoas que receiam o mar e respeitam as instruções dos cuidadores do mar sabiam que não podiam faltar ao respeito ao mar. O mar estacionou as ondas iracundas à mercê do vento apressado. À sua maneira, respeitava a bandeira amarela. 

Alguém murmurou que a bandeira devia ser a vermelha: “ainda há pouco um senhor idoso ia sendo levado por uma onda anárquica.” Os presentes não concordaram. Não era preciso mostrar a musculatura, o mar era capaz de arrefecer os ímpetos ao notar o serpentear inacabado da bandeira amarela constantemente percutida pelo vento extemporâneo. Alguém contrapôs: “estamos todos no areal, já não há turistas a entrar no mar. A bandeira vermelha não é precisa.”

Os peixes não precisavam da bandeira amarela. Estão habituados ao mar iracundo e as profundezas são menos agitadas, os peixes não naufragam nem são depostos por um golpe de mar. Do lugar onde se encontram, os peixes não vêm a bandeira amarela. 

À noite, a bandeira amarela emudeceu. A ausência de luar ajudou. O mar também ficou temperado e desobrigou a bandeira amarela, que podia ser destronada do lugar centrípeto. Mas a bandeira amarela continuou a advertir os perigos que tinham deixado de existir. À noite, os cuidadores do mar deram lugar ao ócio e depois ao descanso. A bandeira amarela pôde repousar, agora que o vento tinha sido desinvestido.

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