11.3.24

Toda esta beleza avassaladoramente desaproveitada

The B-52’s, “The Love Shack”, in https://www.youtube.com/watch?v=9SOryJvTAGs

Os bebés são todos bonitos, não há um único que esteja na fímbria da fealdade. Já os adultos tresandam a feiura. Há de haver um prémio Nobel da matemática que vai descobrir a fórmula que ata as pontas entre envelhecimento e gradual enfeiamento. Podiam, ao menos, descobrir a fórmula para a velhice não quadrar com fealdade.

Os habituais gurus das almas, moralistas amadores que ensinam banalidades e adestram os seguidores numa filosofia de algibeira, apressar-se-ão a devolver os pontos aos i: a beleza é subjetiva; e mesmo que não fosse, esgota-se numa frivolidade a que não devemos dar asilo. Estes pastores das almas combinam o óbvio com o sacramental e talvez eles próprios tenham graves problemas com o espelho que devolve a silhueta.

Se for confirmada a coincidência entre envelhecimento e feiura, é mais um golpe de misericórdia dos deuses. Fica confirmado que os deuses não são entidades boas. Se não quisessem encomendar uma turba inquieta aos consultórios de psiquiatria, os deuses não deixavam que quase todos sejam obrigados a conviver com a sua própria fealdade enquanto não se conseguem desembaraçar da angústia do envelhecimento. Ao cuidado dos procuradores de teorias da conspiração: os deuses mantêm uma bizarra cumplicidade com os psiquiatras.

Os cuidadores de almas ainda vêm a tempo de esclarecer que a feiura pode não ser feiura e, mesmo que seja (duvidando metodicamente que o seja), a beleza subcutânea é a que interessa. Não vá ser acusado de leviandade, daqui protesto credenciais: não me apoquenta a feiura como não me encanto pela beleza; já os cuidadores de almas incomodam-me sobremaneira. 

A diurese de quem se contempla ao espelho, fazendo poses que exageram os ângulos de apreciação, é a prova de como a exposição aos holofotes produz efeitos secundários ao longo do tempo. Quando os holofotes deixam de estar virados para o jovem, e quando ele mal participa no seu envelhecimento, descuidando-se em sinal de resignação, não é de beleza que se fala.

Aproveito a boleia dos gurus das almas: que sejam lavrados os códigos de conduta que nos habilitam a fundir o envelhecimento com uma necessária dose de feiura. Os tempos áureos já foram gastos e desses tempos não há resgate possível. Aprende-se a admitir a velhice sem ser sinónimo de feiura. A velhice é um atestado. A fealdade é uma representação do ser perante o seu exterior, sendo reverberada pela reação dos outros. 

A feiura é um conceito inventado pelos que fogem do seu autojulgamento para apreciarem a fealdade dos outros. 

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