Nils Frahm, “Hammers” (live at Montreux Jazz Festival), in https://www.youtube.com/watch?v=ycA7FtTX4CM
O almirante, o ainda não candidato à presidência da república que, todavia, está-se mesmo a ver que vai ser, é só fumaça. Na sexta-feira passada deu à estampa, no mais conceituado semanário da praça lusa, um manifesto. Mas depressa veio esclarecer que não era um manifesto. Dando seguimento às tergiversações mal fingidas que enfeitam a postura como candidato a candidato, o almirante reformado destapou o véu do seu “pensamento político” (as aspas não são por acaso).
Para sossego da mole que gravita no albergue centrípeto da paisagem política (o centrão), o almirante anunciou que está entre a social-democracia do maior partido do governo e o socialismo do maior partido da oposição. Tamanha equidistância revela um desejo tão ardente de seduzir essa multidão de eleitores (anda à volta de dois terços dos votos em sucessivas eleições) que o almirante, se der um passo em falso, cai para dentro do seu próprio abismo, pois situar-se tão diligentemente ao centro do centro faz com que não haja precipícios naturais que o queiram sobressaltar.
Se era para revelar esta centrista precisão cirúrgica, melhor seria que o tivesse exteriorizado antes, quando foi despontando para o mediatismo ao gerir as vacinas contra a peste e ao aparecer em público como o disciplinador chefe da armada, pois o histrião centrista não é uma personagem convincente. Ademais, o almirante labora numa confusão intelectual que deixaria o seu nome na pauta dos reprovados se tivesse ido a exame de “Ideias Políticas”: a correspondência de ideologias entre os dois partidos que se situam dois milímetros à esquerda e à direita do almirante é a prova manifesta da desatualização ideológica do candidato (a candidato).
Não era o único exame que levaria o almirante a repetir uma disciplina no ano letivo seguinte. Ficaria aquém dos dez valores em “Direito Constitucional” e em “Fundamentos do Sistema Político”. O almirante forneceu umas notas hermenêuticas sobre o papel do presidente da república. Esse naco de conhecimento entra em choque frontal com as regras constitucionais e o sistema político vigente. Sem querer – ou talvez não, que no meio de tanta ambiguidade não é fácil perceber ao que vem o almirante quase candidato –, foi deixando cair umas palavras sintomáticas sobre o que deve fazer o futuro presidente da república no pressuposto que seja ele a ocupar a sinecura. Essas revelações quadram com os excessos de voluntarismo que gosta de exteriorizar em público, juntamente com a propensão para se dar a conhecer com homem providencial. Que interessa que as suas pessoais interpretações constitucionais sejam má doutrina por ser uma doutrina que nenhum perito subscreve? Ainda bem que o almirante anunciou ao que vem: se vier a ser eleito, será um ator de instabilidade.
O almirante desconfia das sondagens – e tem legítimas razões para desconfiar, tantos os abalos sísmicos eleitorais que têm desconstruído sondagem atrás de sondagem, ao ponto de sossegarem os espíritos que desconfiam de oráculos proclamando “é a sondagem, estúpido”, mas em versão alternativa que elimina a vírgula entre o substantivo e o adjetivo e transforma este em feminino. O almirante desconfia das sondagens que o elevam ao pedestal das preferências dos inquiridos por larga vantagem em relação à concorrência perfilada. De outro modo, não se entende como se situou cirurgicamente ao centro do próprio centro. Centro mais ao centro é impossível. Não parece que o excesso de centrismo do almirante seja genuíno, pois não corresponde à linguagem que o notabilizou. Este posicionamento é uma guinada oportunista, não vão as sondagens reveladas pecar por excesso quanto ao número de cidadãos que se manifesta favorável a que o almirante seja o sucessor de Marcelo. Daí o amor assolapado ao centrismo radical.
As insinuações de ativismo presidencial vertidas nas palavras publicadas pelo almirante confirmam-no como um inequívoco equívoco. Desconhece os fundamentos do sistema político e os sedimentos da Constituição, ou deles faz uma tresleitura (deixo ao critério do leitor concluir qual das duas hipóteses é a pior, suspeitando que as considera ambas más). Se o almirante vier a ser o próximo inquilino do Palácio de Belém, temos prometido um mandato marcado pelo ativismo histérico que, decerto, será do agrado dos seus constituintes (e aqui incluo apenas os que contribuírem para a sua eleição).
Estamos perante um empate de desqualificações: escolher alguém que se distinguiu pelas capacidades de gestão no contexto de uma tarefa meramente burocrática (sem desvalorizar a tarefa numa época tão conturbada) para ocupar a presidência da república coloca ao mesmo nível o almirante e quem o eleger. Um presidente da república não é gestor de nada, nem o cargo remete para o poder executivo. É o caso típico de um “erro de casting”, como agora está na moda dizer-se: eleger um candidato por atributos que não correspondem ao exercício do cargo para o qual é eleito.
Presumo que muitos eleitores têm o sonho molhado de ver o almirante a destratar políticos conceituados, como destratou em público os marinheiros que esboçaram um ato de rebeldia quando se recusaram a embarcar numa embarcação que estava sempre a avariar. Eles que sejam postos em sentido e para isso precisamos do espírito disciplinador do almirante. É preciso, pois então, arrumar a casa e pôr em ordem os desordeiros que desgovernarem o país. Quanto à separação de poderes, ela que seja mandada às malvas pela conceção original de ativismo presidencial que o almirante prometeu, e não apenas nas entrelinhas, aos seus seguidores e aos militantes e simpatizantes dos partidos que se situam “entre o PSD e o PS”.
Este primeiro ato do almirante como pré-candidato a candidato assemelha-se a um coito interrompido. Não na conotação pornográfica da expressão, pois o coito não foi voluntariamente interrompido, mas como resultado de um notório – para tomar de empréstimo uma palavra inexistente no léxico mas popularizada por uma ex-presidente da Assembleia da República – “inconseguimento”.
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