The Art of Noise, “Close (to the Edit)” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=nSy9mNjWSVA
Um rei disfarçado de súbdito, pois sonhara que um dia se levantou com o levantamento da plebe, como acontecia naqueles casos em que a turba se amotinava contra os privilégios régios e, com toda a violência possível, depunha a família real e a monarquia. Um rei disfarçado de súbdito à custa de se parecer com um maltrapilho, em abono da credibilidade do disfarce, para passar irreconhecível entre a multidão iracunda que entoa refrões contra a realeza e jura derramar sangue, se preciso for, para encomendar a família real à extinção.
O último rei não sabe que está preso num lugar recôndito a que foi acantonado por estar sitiado pelo exílio interior da consciência. Enlouqueceu antes do tempo – anunciaram, entre o pasmo e o alarme, os médicos que acompanham a corte. Enlouqueceu ainda novo para os registos médicos que definem a idade média a que as pessoas enlouquecem. Já houve um poeta exilado, um poeta que, desde que se fez poeta, nunca aceitou passar os dias sob a égide da “monarquia atávica”, que louvou a diligência da justiça divina. Disse o poeta: a monarquia tem de ser corroída por dentro, e não há melhor devaneio do que ser testemunha da loucura a consumir o monarca por dentro.
Antes de se disfarçar de plebeu, o soberano, imerso numa confusão mental pungente, disparava ordens em sentidos contraditórios. Ora mandou embarcar a parte restante da família real, inventando um novo Brasil algures num arquipélago tropical, convencido de que era o Brasil novecentista. Ora ordenou às tropas leais (que não sabia quais eram) que defendessem o palácio até ao último centímetro e, se preciso fosse, pagassem com o próprio sangue a defesa da realeza contra os instintos animais da plebe enfurecida. Ora, num retrocesso de rara lucidez, desfazia as ordens anteriores porque muito pesava nas suas olheiras a consciência de que os súbditos olhavam com indiferença para a realeza. Foi quando o rei descobriu que tinha de deixar de tratar os cidadãos como súbditos, pois já não estava no século XIX.
O rei deserdou os sucessores da linha dinástica. Depostos os pretendentes ao trono, já não havia quem pudesse reivindicar a legitimidade de o suceder no trono. Aliás, o rei já não usava o trono que, entretanto, ganhou teias de aranha. Como a monarquia. Quando o rei fugiu do país, ainda convencido de que havia uma caça ao fantasma em que se tornara, o reino deixou de ser reino por vacatura do trono.
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