6.10.26

Quem quer um(a) babysitting? (Sobre a tirania dos consultores de comunicação)

Gorillaz ft. Spark, “The Happy Dictator” (live at Jimmy Kimmel Live), in https://www.youtube.com/watch?v=q6sa6pWz1NQ&list=RDq6sa6pWz1NQ&start_radio=1

Este é o século de muitas coisas, aquelas que as pessoas quiserem que ele seja, ou aquelas que, no momento, deem mais jeito para subir ao trono do que o que é indispensável. É o caso da comunicação. 

É preciso comunicar com cuidado. Há tantos exemplos de palavras mal colocadas, de uma palavra fora do sítio, de amputar intencionalmente declarações para que fujam do contexto e saiam com um significado que não seria assimilado caso o contexto não tivesse sido adulterado, de quem tem a língua solta e conta o que não deve e guarda o que devia ter sido dito. E também se multiplicam os casos que não são controláveis: como o destinatário entende a mensagem, se a treslê e se é intencional ou por falta de capacidade hermenêutica. São exemplos abundantes. É preciso ter cuidado com a forma como se comunica. Nunca foi tão acertado lembrar o adágio: pela boca morre o peixe. (Descontando os exageros da morte como consequência de acidentes de comunicação e da comparação entre qualquer um de nós e um peixe.)

Para não sermos traídos pela palavra escorregadia, pela distração convexa, pela inépcia semântica, ou sermos vítimas da indigência interpretativa, de processos de intenções à boleia de palavras mal escolhidas, do contexto adulterado que serve para tresler o que dizemos, é sensato recorrer aos consultores de comunicação. 

Como as palavras que dizemos são o rosto da comunicação com o exterior, devemos escolhê-las com critério. Urge a contratação de conselheiros de comunicação, teoricamente dotados de uma capacidade hermenêutica e de uma visão esclarecida acima das nossas capacidades. Além desses predicados, possuem uma capacidade de persuasão que nem os advogados palavrosos e cartesianos conseguem ter. Os conselheiros de comunicação treinam os consultados para uma comunicação desejável, à prova de acidentes e incidentes. O que deve ser dito, em que momento, com que expressão corporal e quais palavras devem ser evitadas para não desarranjar a comunicação metodicamente ensaiada. 

Tanta é a convicção com que convencem os consultados que estes se limitam a papaguear os consultores. Ficam nas suas mãos. Nos bastidores, sem revelar os seus rostos, os consultores exercem uma ditadura sobre os consultados e sobre a audiência a que querem chegar. Se os consultados fogem das diretrizes, os consultores apressam-se à prestação de contas – “eu avisei!”, lavando as mãos para não assumir a responsabilidade pelo que foi dito ser tão diferente do que foi aconselhado a dizer.

Quem se entrega nas mãos dos consultores de comunicação fica penhorado. É uma prisão da qual dificilmente sai (a não ser que o caso evolua para a rutura). É como se precisassem de babysitting para tomar conta deles, o tempo todo e a toda hora. 

É caso para dizer: ainda mal que nos empenhamos a estes babysitters.

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