19.10.26

Couraçado

Fontaines D.C. ft. Rosalía, “Where Is Gone”, in https://www.youtube.com/watch?v=JxS3kEhO4zk

A correr. A vida passa a correr. E não pede licença para passar, às vezes ao nosso lado, e nós somos espectadores prostrados do lustro invejável da vida que se move na linha ao lado. 

Depois, esbarramos na pungente verificação do tempo efémero. Digo, verificação do tempo efémero. A aritmética conspira contra nós: a soma da vida que passa ao lado com a efemeridade do tempo é como uma granada que rebenta à nossa passagem. Não pressentimos a catástrofe que pode apoderar-se de nós e seguimos, tresloucadamente, a caminho do precipício que assim validamos. O culto do arrependimento é o passaporte de uma fraqueza irremediável. Oxalá não perseguíssemos a redenção, como se fosse a caução dos erros que têm o futuro como paradeiro. 

Não precisamos de pedir licença ao arrependimento. Entaipemos as janelas com cortinas baças; ninguém consegue alcançar as paredes puídas que são a marca do tempo e de algum desleixo que se verte em camadas na pele desautorizada. 

Detesto relógios. E aquilo que eles mexem, ainda mais. Quando peroram sobre tiranias, esquecem-se de convocar o tempo, a pior delas todas. Não queremos estar num lugar porque ele obedece a um tempo. Seja onde for, esse tempo é implacável. Imoderado. Deita-se sobre nós sem lhe darmos consentimento. Absorve a vontade. Quando olhamos para o tempo, ele acabou de se extinguir na medida instantânea que se sucede na moldura arrastada numa medida do tempo maior. Cometemos um erro fatal: somos juízes de nós mesmos sem sermos juízes em causa própria. Mesmo quando terçamos a função na casa própria, não pomos limites ao julgamento implacável. Por mais que seja uma vida que, aos olhos dos outros, é invejável. As vidas dos outros são as mais fáceis de adestrar. 

Tanta ciência junta, tantos avanços que atiram a civilização para o espaço sideral, e ainda ninguém inventou um modo de atrasar o tempo sob a égide de uma potestade irrebatível. A ousadia não chega a duplicar com a suspensão temporária do tempo quando há atritos matriciais por dirimir, as pendências que se arrastam para além do tempo e deixam cicatrizes intratáveis. Os cientistas são os piores inimigos da humanidade. 

São tantas as crises que se evocam que, distraídas por platitudes, as pessoas escondem-se da esgrima para que o tempo nos açambarca. Nós, que tanto maltratamos o tempo por não sabermos que ele não faz saldos nem promove descontos, só nos lembramos dele quando a angústia do entardecer murmura ao ouvido. Inscritos no mapa das pendências, ficamos à mercê do tempo, corpos improváveis que não se saciam da vontade autónoma exortada por exércitos de iludidos. 

Ou então, designados a avivar estas fragilidades, entregamo-nos como presas de um tempo maquiavélico. Se não fôssemos reféns desta displicência, não seríamos contumazes de nós próprios.

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