13.10.26

O granito que molda os homens

Royal Blood, “Dead Company”, in https://www.youtube.com/watch?v=XPbeRzzMp7Q

Há terras que são o epíteto dos homens que lá nascem. As terras que se fortalecem em leitos de calcário são assim. Quem as olha desconfia da sua severidade. A paisagem não é generosa. Para o observador treinado para se extasiar com paisagens bucólicas, as terras feitas de calcário que deixam à mostra arestas vivas estão nos antípodas daquelas paisagens. Os que nasceram nesta maceração de calcário não se importunam. A beleza descobre-se até na fealdade. Desde que a perseverança não seja descartada.

As pessoas que nasceram nestas terras montanhesas parecem ter sido moldadas pela austeridade rochosa do lugar. São corpos avantajados, mãos largas (não no sentido metafórico de generosidade) e pele marcada, como se fossem cicatrizes impostas pelas arestas de calcário que ferem diariamente as pessoas. 

A vegetação rara combina com o calcário que amanhece em altitude, sacrificando o oxigénio respirado pelas pessoas. Estão habituadas à provação do oxigénio. Não lamentam as desvantagens quando lhes chegam notícias sobre outros lugares mais generosos. Foi aí que nasceram e sempre viveram. Foi assim que se habituaram a viver, cercados pelos sacrifícios de uma vida dura herdada da geografia do lugar. Alguns migraram para lugares onde a vida se tornou aprazível. Muitos preferiram ficar. Aprenderam a viver sob os auspícios da dureza do calcário, quase como se pisar as terras assentes em plataformas de calcário fizesse parte do seu respirar intrínseco. Sair dali para os tais lugares aprazíveis seria como viver submetido a um habitat estranho, agressor.

Quando envelhecem, ganham rugas que mais parecem a forma exata das formações calcárias que se moldam à pele. Não prescindem dessa tatuagem que se enraíza na sua identidade. As rugas parecem mais fundas do que as marcas das rugas dos habitantes de outros lugares ermos sem terras calcárias.

Tal como os mananciais de água se purificam nos aquíferos impermeáveis pelo calcário limítrofe, os habitantes destes lugares pedregosos exibem uma autenticidade. Tudo neles é frontalidade. A rudeza é rudeza quando tem de ser rudeza; a generosidade é ímpar quando se ajeita a ser generosidade. A irascibilidade é temível (ninguém os veja virados do avesso); a entrega descomprometida é singular quando são levados pelos bons instintos das pessoas que lidam com eles. Quando são atraiçoados, reagem como bestas furibundas que carregam o calcário no sangue em ebulição. Ferem como se fossem as arestas vivas do calcário em que medraram.

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