David Byrne, “Let Me Sell You a Dream”, in https://www.youtube.com/watch?v=wcFdiEcQdTc
Às vezes, as pessoas invocam canídeos e o seu ladrar para concluírem que não é por muito ladrarem, nem por transparecer agressividade, que se dá por garantido que vão ferrar o dente a alguém. É um caso típico de desproporção entre meios e fins: ao atestar pelo chinfrim, em decorrência do latido agressivo, dir-se-ia que o canídeo estava preparado para uma investida e exercitar furiosamente o maxilar para deixar uma marca registada na perna da vítima.
A lua não se fez em sete dias. A precipitação arregimenta as pessoas para um coletivo cadafalso. São esses passos em falso que as tolhem, sequestradas pela armadilha do tempo irrisório: como se extingue sem vagar, a pressa é tirana e acalenta as precipitações que, por vezes, encerram consequências irremediáveis.
A resplandecência de certos egos é desta natureza. Intuem clarões vívidos que tornam a noite em dia por instantes, amparados num raio que se desmultiplica como se fossem os ramos de uma árvore frondosa, toda a claridade bolçada a tornar ilusório o dia a meio da noite. Não passa de uma ilusão fermentada pelo próprio. Ele não é fautor de um raio que, exuberante, se abate sobre a paisagem limítrofe. Não passa de um corisco que mal se distingue na ampla escuridão do momento.
Os eruditos asseguram que os mamíferos não têm barbatanas. São traídos pela evocação de uma generalidade, sem admitirem que uma generalidade se distingue por contemplar exceções. Contam com a inércia da turba: aceitam a primeira informação que lhes chega, o espírito crítico luta contra o desleixo e está condenado a perder a peleja. Os eruditos com televisiva aparição periódica sabem que podem disfarçar a erudição num mal amparado processo de transmissão de conhecimento. O rigor perdeu-se nos anátemas da existência, que exaltam a veia mundana e exilam a certificação do saber e a inventariação da verdade.
Muitas vezes, a verdade não chega a ser póstuma, sequer. A lua não se fez em sete dias, nem atrás do sono distraído de divindades que não se esperava que fossem tributárias do sono. Oxalá a verdade não tivesse barbatanas. Os coriscos não passavam de coriscos, nem mesmo nos (piores) sonhos dos indigentes.
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