PJ Harvey, “Voyager”, in https://www.youtube.com/watch?v=XzCjzFsGl_c
Lugares há onde se imagina um chão sem sangue, mátria com os nomes justos nos murais onde se ensina a lucidez. Em seu chão atapetado, fingem-se as atrocidades de outrora, como se a mentira da memória servisse para esquecer os nomes das vítimas.
Não são os nomes que importam. Cada nome é uma história de sofrimento, as dores incalculáveis sentidas antes de deixarem de fazer parte do mundo. O esquecimento não é uma banalidade, é um insulto. Um insulto aos que foram vítimas da demência apadrinhada pelos poderes em função; insulto a todos nós, viventes e antepassados perecidos.
Por cada gota de sangue derramada contra a vontade de alguém; por cada morto indecorosamente arregimentado para campos de batalha; por cada general que esconde a hipocrisia na ordem que encomenda mancebos para avançarem para uma morte inglória; por cada guerra travada contra as advertências da razão – experimentamos o abismo e confirmamos a indigência da espécie que de si diz, tão ufana, que é a única empossada de racionalidade. Participamos deste ultraje, por endossarmos a louca política dos políticos loucos, ou pela cumplicidade de quem se refugia na letargia.
Os olhos não se marejam com as dores arrancadas a ferros aos outros, vítimas que nem podem alegar a sua inocência. Todo o tempo gasto a fingir o contrário é usura. Somos reféns, voluntários ou por omissão deliberada, de gente pouco gente que devia ser julgada pelo delito máximo de quem espezinha uma vida humana como se não valesse nada. Andamos a correr atrás do tempo quando ainda não acertamos as contas com o tempo pretérito. Somos esta farsa terrível que nos atira para o lugar pútrido onde se congeminam os desexemplos. É inútil darmos corda aos relógios se o passado ainda está pendente.
Este espectro devia inquietar-nos, as sombras povoadas por vultos que oprimiram quando o seu foi um tempo presente e continuam agora a oprimir por procuração dos sucessores. E nós, a fingirmos que somos humanidade.
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