Dead Can Dance, “Mon Amour Sauvage”, in https://www.youtube.com/watch?v=K9vTQcYwdB4
Os subúrbios escondem veias arrefecidas pela indiferença. Vamos aos subúrbios quando nos escondemos dos alinhavos da alma e atiramos mel ao ontem amordaçado. Contadas as folhas amarelecidas e os dentes puídos de nefelibatas ao acaso, o rio adormece na quietude do entardecer sem o óbice do vento. As palavras contam, umas mais, são como os trocos que se passeiam dias fora na carteira, moedas que vão ficando esquecidas pela usura do desvalor.
A maçã do rosto aquecida pelo sol prévio absorve o sumo solar que a ninguém deixa indiferente. Uns convocam o sol no pressentimento do inverno; dirão que é por conta dos sombrios dias de inverno, quando as tempestades não abandonam o calendário e as pessoas suam a melancolia. Outros continuam a celebrar o dia soalheiro porque não podem decretar, com força de lei, a perenidade do sol. O desencontro com o futuro não os sobressalta. Por conta da contingência desenfreada, colhemos do futuro o fruto que se desenvaidece num instante.
O que nos vale é o vinhedo que se eleva até à tela central que emoldura a paisagem. Os socalcos esculpidos sob o pulso dorido das artes humanas, as parras acobreadas que acompanham o outono vigente, o vinhedo sobranceiro ao rio parecendo que fala com ele todos os dias, como se rio e vinhedo fossem parentes numa conjugalidade ímpar. As nuvens que embaciam a lucidez dissipam-se sem demora. Até que sejamos nós a falar com os socalcos que contam os segredos sepultados no subsolo onde as vides se alimentam.
O ocasional incenso das memórias não se desencontra das encruzilhadas espalhadas no caminho. Não há placas com indicações. Sigo por estima, a intuição a tomar o lugar da minha voz, o meu nome entoado na noite funda que escurece toda a paisagem à volta. O bater do coração parece roubar o ruído feito de silêncio. Podia dizer que era o único som que se ouvia na noite silenciosa. Até a lua conseguia ouvir.
O bater do coração dizia que o vinhedo nunca saía da memória. Mesmo quando o lugar a que se desejava ir era longínquo, a vinha estava tatuada na alma. As palavras soavam a poemas abençoados pelo vinho feito no lugar.
Sem comentários:
Enviar um comentário