Rhye, “Shadow in the Storm”, in https://www.youtube.com/watch?v=Al-g9Akdh5U
Não cumpri promessas. Não me juntei a causas generosas que exigem militância e desprendimento. Só fugi das responsabilidades monstruosas. Cumpri as profecias do luar. Esta é a lisura não exigente de que me orgulho. Não disse o que devia ter sido dito e descaí para as palavras desastradas em momentos avulsos. Sabia que de mim se exigiam máximos, ou pelo menos pressenti-o, e quis estar à altura da exigência. Joguei com a sorte sem saber que ela é contingente, como cada dia que vai para o inventário. Tomei partes pelo todo, ignorando que as metáforas ateiam a complexidade. Não quis, mas às vezes fui gongórico (se houvesse pecados a confessar, o meu ódio de estimação). Quis voltar atrás e demovi-me da redenção. Deixei de ir para o estirador esboçar planos a régua e esquadro; os contratempos e as incertezas trataram de invalidar os planos. Escondi lágrimas por causa da insofismável vergonha de que homem que é homem não verte lágrimas. Escondi-me de sacerdotes de causas abrigadas e das verdades incorruptíveis, dos curadores da moral pública, dos honestos mecenas das virtudes, todavia desmentidas pelo mundo que teima em ser um lugar perfeitamente imperfeito. Dei-me às impurezas, ao desacato interior que subleva a alma, não encolhi as mãos perante a lava interior. Consegui o despenhor parcial que me dá uma ideia aparentada de ascese. Muitas vezes, não disse adeus, mesmo sabendo que essa seria a formulação acertada, por medo do que é efémero e da finitude das vidas. Parei de pensar na parábola da última vez (será que é a última vez que faço isto, ou ouço aquilo, ou vou a este lugar?) para não ficar aquartelado pela angústia. Aprendi a conviver com as falésias sem ser refém de vertigens. Tomei partido do esgotamento do tempo, no sentido de extrair dele o máximo que contiver. Emancipei-me. De mim mesmo. E agora que aprendi a apreciar esta liberdade, não há nada diferente que queira alcançar.
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