27.10.26

Tira as teimas

Summer of Hate (ft. Nancy Knox), “Ecstasy”, in https://www.youtube.com/watch?v=L9wnzT8Ezts

Tiro as teimas à matéria empatada. O caudal destroça o granito milenar; a rocha não é mais dura do que a água. A certa altura, o caudal esbarra num estrangulamento (os cientistas diriam: fratura geológica). A água tem de saber por onde prossegue. O granito resiste, exerce pressão sobre a água. Ela começa a estender-se para as ilhargas e forma uma lagoa. O caudal mostra a sua generosidade. Como não pode reter a paciência até ao fim dos tempos, investe contra o estrangulamento. Seu será o vencimento de causa neste tira-teimas. 

O luar contrafeito dissipa-se com as nuvens que levitam no restolho noturno. A noite escurece. O luar emudece. O luar foi condenado ao silêncio porque as nuvens resplandeceram. Poucos concordam com o diagnóstico. Está convencionado que, se as nuvens ocupam o céu no pressentimento de uma chuva que desagrada à maioria, é sinal de mau tempo. Quando as nuvens ainda são infantes e não passam de uma camada translúcida, é um tira-teimas entre o luar e as nuvens. Teimas tiradas a favor das nuvens, que aproveitam a maturidade da noite para encorparem, mas o luar não desiste. A noite seguinte será o palco para tirar as teimas, outra vez. 

Na matéria dos empates consagra-se o palco preferido dos tira-teimas. Há quem aceite o estado larvar de uma contenda quando os dois lados não saem derrotados. É mais diplomático ratear as perdas: evita-se a humilhação do derrotado, o proverbial comportamento que condena o perdedor a banhar-se nas águas da derrota como carga suplementar de quem perde. É preciso saber praticar a humildade dos vencedores. Ou pode o perdedor peticionar a desforra, num tira-teimas que pode exigir outro tira-teimas e assim sucessivamente. 

As regras previnem os tira-teimas a destempo. Há contendas à melhor de cinco, outras à melhor de três; outras são decididas numa única etapa. Suplicar um tira-teimas que fere o braço das regras é uma exibição de mau perder e um ultraje às instituições (– as regras são esteios das instituições –). As regras não são mudadas por vontade unilateral, a menos que o sentido da democracia tenha sido adulterado. Se o tira-teimas vier a destempo, corresponde ao contrabando das regras. E a um sintomático mau-perder. 

Desconfie-se do mau-perder de quem o tem. São os mesmos que exibem mau-ganhar quando se sentem empossados pela embriaguez de um triunfo. Neste tira-teimas, as teimas só são postergadas.

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