New Order, “Leave Me Alone” (live at the Haçienda), in https://www.youtube.com/watch?v=-NJlIjYTjhY
(Manel Cruz, depois da acampada do Porto: “A polícia que pagamos com os nossos impostos vem aqui tirar esta gente a mando de um gajo que nós elegemos.”)
Começo pela semântica: a linguagem informal presta-se às informalidades que lhe são óbvias. Fosse o lugar de onde partimos um institucional arreio, e chamar “gajo” ao primeiro-ministro seria um deslize impróprio para consumo. Mas, se parto do pressuposto de que sou um gajo imerso numa multidão de gajos e de que nos engajamos (tradução bastarda de “engaged”), que mal vem ao mundo se tratar o chefe do Executivo como gajo? Mal de nós se a igualdade, tão aclamada nos compêndios que servem para balizar o engajamento, não admitisse tratar um primeiro-ministro como se trata qualquer um dos confrades daquele engajamento – o conceito que substituiu a cidadania para melhor expressar a nossa condição de gajos.
Primeiro equívoco: o músico enganou-se ao fazer a radiografia do sistema político. Talvez aldrabado pela prática instituída pelos gurus de marketing político, que usam e abusam do Photoshop quando congeminam os outdoors com o rosto do candidato, Manel Cruz deve ser daqueles que são levados a acreditar que, nas eleições legislativas, escolhemos o primeiro-ministro. É errado, caro Manel: tu, que vives no Porto, com o teu voto ajudas a escolher quarenta deputados eleitos pelo distrito do Porto. Somados os votos dos distritos e conhecida a distribuição de mandatos pelos partidos, o Presidente da República convida o líder do partido mais votado a formar governo.
Segundo, não entendi a relação causal entre a polícia que é paga com os nossos impostos e as ordens que recebe do gajo que a maioria de nós ajudou a escolher como primeiro-ministro. Terei entendido mal ou o artista está a validar o critério contributivo (nós, gajos que pagamos impostos que servem para pagar a polícia) acima do critério que emerge da legitimidade democrática (o gajo escolhido pela maioria dita ordens à polícia)? Portanto, o dinheiro (o que pagamos de impostos) sobrepõe-se ao critério imaterial, mas axiologicamente superior, da legitimidade derivada das regras do sistema político. É o raio do capitalismo que, de tão enraizado até ao tutano, nos leva a estas contradições de termos. Afinal, Manel Cruz é um embaixador do vil metal e nós não sabíamos.
Terceiro, e como extensão da anterior perplexidade: Manel Cruz está a insinuar que a polícia deve lealdade a quem lhe paga impostos e não a quem é o seu mais alto superior hierárquico? Os agentes enviados para repor a ordem deviam recusar as ordens do “gajo que nós elegemos” se os protestantes se recusassem a sair do lugar ilegal em que se encontravam? Pelo andar das coisas, uma manifestação de rua tem mais legitimidade do que o “gajo que nós elegemos”. Fico sem perceber se Manel Cruz tresleu o sistema político em que vivemos, , ou se ignora os seus fundamentos, ou se perorou em forma de “wishful thinking” (abaixo a democracia representativa).
No primeiro caso, aconselho-o a inscrever-se num curso rápido de Introdução à Introdução em Ciência Política e num módulo rápido sobre Instituições Políticas Portuguesas, seguido de um posfácio abreviado sobre Filosofia Política que o ajude a distinguir entre os contornos desagradáveis da realidade e os desejos que estão longe de corresponder aos desejos da maioria dos gajos recenseados.
No segundo caso, desejo-lhe má sorte.
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