Nine Inch Nails, “Where Is Everybody”, in https://www.youtube.com/watch?v=JZvBRU_FNo4
Anteontem, duas meninas da extrema-direita pátria, por sinal deputadas, invadiram a Rádio e a Associação Académica coimbrãs. Protestavam contra a exclusão de um debate político, porque o partido de que são deputadas tinha sido banido da voz pública por magna decisão dos representantes dos estudantes.
Não me importa a argumentação que legitimou a exclusão. Receio por igual os autoarvorados polícias da democracia e as figuras miasmáticas que a assombram (qualquer que seja a sua linhagem). Por mais que justifiquem que não aceitam os neofascistas na ágora onde parlamentam os democratas, excluir é típico dos totalitarismos. Democrático é incluir. Até para sermos testemunhas da oratória desrazoável dos mandatários da extrema-direita pátria. É deixá-lo(a)s eructar a consabida boçalidade. Deixá-lo(a)s falar o tanto que puderem é o melhor antídoto, mesmo que muitos se fiem no jogo das sondagens para desmentir o meu pressentimento.
Contrariar a lógica da democracia com medo de que os antidemocratas a liquidem é um assassinato da democracia, perpetrado por quem se diz seu defensor; uma contradição de termos, ou talvez apenas (no caso de alguns) um mal disfarçado complexo de Édipo com a democracia. Na democracia, os outros não ficam à porta nem lhes é vedada a palavra. Se os escondemos, constituímos-nos em quem os faz crescer por fora.
E se, um dia destes, em eleições legislativas, uma maioria quiser que os neofascistas subam ao poder, o que fazemos a seguir: cancelamos as eleições? Antes de lá chegarmos, não percebem os democratas (os genuínos e os que assim se fazem passar) que ostracizar os neofascistas é o comburente do seu crescimento? Ainda poucos perceberam que encostar neofascistas às cordas, colando-lhes ainda mais peçonha do que a que lhes é intrínseca, os coloca no lugar da vítima. O cidadão comum – prova-o a idiossincrasia nacional – adora solidarizar-se com a vítima de turno.
Estamos a fazer tudo ao contrário. Não nos queixemos, depois.
Sem comentários:
Enviar um comentário