Slowdive, “Alife”, in https://www.youtube.com/watch?v=MhQht-YK8rw
Não era preciso um miradouro para fazer a triagem das partes que dedicaram o dia a um contencioso. Ainda insisti que não era qualificado para resolver contendas, quaisquer que fossem, e menos ainda aquelas que estavam para ser dirimidas por partes, estas sim, tão qualificadas. Não era que temesse ser olhado com sobranceria caso as partes se considerassem num patamar superior ao meu; muito menos receava que, em validação da pesporrência estatutária, declarassem que não me reconheciam capaz para o papel que me tinha sido atribuído. Seriam coisas menores, se acontecessem, e não seriam capazes de me perturbar. A minha perturbação vinha de ter sido requisitado para a função. Queria tanto estar sossegado no meu canto, agarrado aos livros e a contemplar a crueza das paredes. Ainda cheguei a perguntar por que se tinham lembrado de mim. Soube que tinha sido por exclusão de partes. Homenageio quem teve a honestidade de me dizer – não que tivesse a pretensão de ser a primeira escolha para o que quer que fosse, mas a pessoa que me informou podia ficar inibida, possivelmente a suspeitar que eu teria a mesma sensibilidade. Não era o caso. Para o que estava em questão, era indiferente que tivesse sido escolhido por exclusão de partes, assim como era irrelevante saber das partes que se autoexcluíram e por que se colocaram à margem. Ensaiei uma, admito, manobra pouco convicta de recurso: seria a minha vez de me declarar indisponível; mas, pela pouca convicção, quem fez o convite fingiu que não me tinha ouvido. E ali estava, impossibilitado de ficar fora da equação e sem vontade de decidir o que havia para decidir. Até porque desconfiava que teria de o fazer por exclusão de partes – ou melhor, exclusão das partes que me eram levadas a concurso, por privação de legitimidade da excluída.
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