20.10.26

“Os ricos são parasitas que alimentam-se [sic] da nossa desgraça”

In Público, 18.10.26, p. 1

Arsénio é um sexagenário que teve a sorte de nascer num literal berço de ouro: uma família burguesa que enriqueceu no ramo imobiliário à custa de negociatas de duvidosa ética, só permitidas porque, nos tempos de antanho, era possível aos poderosos atestarem, por mote próprio, que um terreno — prédio rústico depois anarquicamente transformado em prédio urbano — era sua propriedade.

Arsénio nunca soube o que eram dificuldades materiais. Das outras, as emocionais, também não, por simplicidade (para não dizer simplismo) comportamental: durante a sua vida, só contavam as coisas com mensuração material. O dinheiro vinha antes de tudo. Aliás, não havia dimensão para além da material. O propósito da vida de Arsénio foi engordar a fortuna à medida que também engordava e as adiposidades o iam deformando. 

Alguém de fora, sabendo da prosperidade de Arsénio, diria que ele nem sabe a fortuna que tem. Mas sabe. Dia após dia, não acaba o dia sem fazer o cálculo da fortuna. Detesta os dias em que o portfólio emagrece. Deita-se emocionalmente empolgado quando o dia termina com ganhos financeiros. 

Entre o seu abundante património, Arsénio não perdeu a conta aos prédios urbanos. Começou pelo Porto natal, mas foi ampliando o inventário de apartamentos, primeiro, e de prédios inteiros, depois, comprando pelo país fora. Já era senhorio e tornou-se ainda mais senhorio, assenhoreando-se dos proveitos materiais que um mercado ensandecido permite aos senhorios enquanto castiga os inquilinos. 

Com a moda do turismo e com a perspicácia para o negócio (“esperto como o alho” é o seu lema, de que se gaba sem perceber o alcance do que diz), alargou o negócio ao ramo do alojamento local. Se os turistas são mais endinheirados do que os nativos e pagam, sem tugir, os preços para se alojarem em cidades que caíram no goto dos turistas, a “racionalidade económica” obriga a desviar recursos do arrendamento para o alojamento turístico. Arsénio sabe que engorda a sua fortuna e desgraça ainda mais a vida de quem queira arrendar um apartamento: por efeito deste desvio de recursos, contribuiu para o encarecimento do arrendamento de apartamentos. Não quer saber – aliás, quer saber, mas apenas porque assim tem enriquecido ainda mais.

Arsénio é insensível aos argumentos de gente bem-intencionada que aviva as injustiças sociais por haver Arsénios de mais. O egoísmo de Arsénio só deixa ver os números que precedem o sinal do euro. Se os mais pobres têm dificuldade em arranjar habitação, esse não é um problema seu. Castrar os pobres ajuda ao seu enriquecimento. Entre um mínimo de dignidade para os pobres e mais umas centenas de milhares de euros na sua fortuna, Arsénio não hesita de que lado está. Cada um por si – foi o que aprendeu do avô, o patriarca da família que congeminou maneiras pouco éticas de alastrar a fortuna.

Arsénio não percebe que este comportamento pode ser suicidário. Se soubesse de História, lembrar-se-ia de episódios de sublevação das massas contra os privilégios dos poderosos que terminaram mal para estes. Se fosse humanista, não seria insensível às provações por que passam as pessoas que não conseguem encontrar uma casa condigna a um preço que não seja usurário. Se não fosse politicamente datado, não passaria ao lado do fermento da revolta quando pessoas injustiçadas saem à rua e procuram resolver na rua o que o sistema político é incapaz de resolver. 

Arsénio, e os da sua laia, deviam saber que podem deitar tudo a perder se teimarem em fazer crescer as fortunas enquanto os remediados empobrecem e os pobres ficam reféns da miséria. Podem deitar tudo a perder, pagando com a vida e com a perda de todo o património se as propostas revolucionárias vingarem na rua e forem transferidas para o sistema político. Ele e os da sua laia que não se convençam de que o socialismo foi derrotado pela História.

Arsénio não sabe que uma rua assim vulcânica, quase no limiar da explosão, o considera um parasita. É dono do seu tempo, como é dono de sabe-se-lá-quantos apartamentos e alojamentos locais. Não tem de acordar de madrugada para apanhar um transporte público decadente, apinhado e que chega ao destino com atraso. Não tem de fingir um almoço porque os parcos rendimentos obrigam a racionar as compras no supermercado. À noite, não tem de dormir mal por causa do frio no Inverno e do calor no Verão que tornam o modesto apartamento sempre desconfortável. Não tem de adiar planos porque o dinheiro do mês não chega até ao final do mês. E depois passeia-se, untuosamente, na sua berlina Mercedes, almoça perdiz e bebe um vinho que custou quase o salário mínimo, à tarde joga golfe (essa atividade tão produtiva) com outros da sua laia.

Arsénio teve de ir ao médico e o consultório ficava na praça adjacente à manifestação contra a falta de habitação condigna e a carestia da vida. Encheu-se de coragem e atravessou a praça de forma longitudinal. Deu de caras com uma menina que, enquanto apregoava as palavras ditadas pelo coordenador da comissão do momento, hasteava um cartaz: “os ricos são parasitas que alimentam-se [sic] da nossa desgraça”. Parou junto à menina e percorreu demoradamente o cartaz com o olhar, como se lesse sílaba a sílaba, uma e outra vez. E disse à menina: “eu sou rico. Sou o retrato do seu cartaz. Mas tem de ter cuidado com as generalizações. Conheço alguns ricos como eu que não são como eu.”

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