22.3.13

O miradouro dos inglesinhos


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEim-30lK_1afLaQBhgPj0zS543tKDPq_3-uSItKkRBBtF384t52P5y2Z5Sg9XfkQj1ODjC7xmy2p6bTiBT6_1mvA_qkQRrRiHumg2A4qzXwnAcXD-Imr4cs2zAj_YEj7zfs4Qd_/s1600/VIsta_Noturna_mir_Graca.JPG
Só de saber que tinha de voltar ao centro de emprego, uma insónia teimosa aterrou já a noite ia para além da infância. As imagens de miséria, a tristeza em que se consumiam as pessoas que aguardavam por vez na sala de espera, o palavreado incendiado da senhora descontente – tudo era uma constante que não desembaraçava o pensamento.
Saiu à rua. Foi sentir a humidade noturna, agora que o nevoeiro descia para beijar o chão com orvalho. Não levava rumo. Foi por onde as pernas mandavam. Era a primeira vez que se condoía com a aflição de que ainda não dera conta. Mas era um sentimento singular: não reclamava comiseração para si, afinal tão desempregado como os que estavam no centro de emprego. De repente, viu-se cercado por uma auto penitência pois andara anestesiado pela leviandade. Por enquanto, sobrevivia sem contrariedades. Nunca pensara até quando podia durar o sossego, talvez o ilusório sossego. Um destes dias podia ser ele a atravessar as mesmas carências – e, nessa altura, não podia ser diletante como o fora até ter entrado pela primeira vez no centro de emprego.
A páginas tantas, notou no caminho para o miradouro dos inglesinhos. Empreendeu a subida entre as finas gotículas do nevoeiro. No promontório onde esperava ter a cidade a seus pés, onde esperava que o emaranhado de luzes soçobrando no silêncio da madrugada fosse conselheiro, só conseguia distinguir o manto de nevoeiro que se deitara sobre a cidade, abaixo dos seus pés. A tristeza não entrou por ele dentro. Aquele quadro no cimo do miradouro selava a incógnita que não cessava de o atormentar desde a visita inaugural ao centro de emprego. As luzes impedidas pela névoa que engrossara eram o sinal que precisava. Não resolvemos as pessoais inquietações com os sobressaltos que acometem os outros.
E depois de se interrogar se esta lição não o atirava para os braços da apatia, para depressa intuir que não (ou que o não era o mais confortável troco), voltou a casa tomado pelo sono que derrotara a insónia. Doravante haveria de cuidar de si e dos dias por diante que podiam ser uma constelação de sacrifícios. Tinha um desafio entre as mãos: combinar esse cuidado com a vida verdadeira que a desocupação o tinha ensinado. 

21.3.13

Onde aterram as misérias


In https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhVhT_R3bG63OeNDqO4qBWbxjNkA9yUdcWToTyj_MgPaZfmtSUXNe_FtbbT_wKNzO0wy83eEqZgytK2QJ3aa6xdAeyT66LeICvKUGkAS5rUIdmMKsGn-fBFbWkH797rOdNC-8u-XQ/s1600/sala-de-espera.jpg
Era parte das dores de parto da situação que o atravessava: visitas periódicas ao centro de emprego. Tinha de provar que o mercado de trabalho ainda não queria nada com ele. A bem dizer, não tinha razões de queixa do olvido do mercado de trabalho. Era um caso singular.
Ao seu lado também esperava pela vez uma mulher, talvez a bater à porta da quarta década de vida (se o rosto macerado pelo sofrimento não enganasse). Ela resmungava para quem a queria ouvir (e para quem não quisesse também, a menos que, incomodados, fossem fazer espera pela vez do atendimento para longe daquela vociferação). A mulher protestava contra a inércia em que fora posta contra a sua vontade. As lamentações eram umas atrás das outras. Que os patrões foram criminosos porque não souberam gerir a empresa (confirmando que, nestes tempos turbulentos, todos sabemos de gestão de empresas). Que, depois da falência, não houve património para pagar as indemnizações a que tinham direito os que foram despejados no desemprego. Que o marido tinha encontrado semelhante desdita no mês seguinte, ficando a família dependente da comiseração do subsídio de desemprego. Que a filha mais velha tinha de cercear os planos – a entrada na universidade que a esperava no ano seguinte, entre parêntesis. Que nem os biscates sussurravam à porta de casa, como dantes acontecia quando o marido metia no orçamento familiar um pecúlio farto. Que o frigorífico e a despensa já não forneciam abundância. Que até o casamento se ressentia, a crise como se fosse a báscula que embotava um amor que – desnudava sem noção da devassa a que se expunha – talvez apenas fosse um arremedo. E que o governo era criminoso, a juntar aos patrões que também o foram. E a maldita troika também.
Antes que começasse o comício inflamado, e antes que começasse a ter pesares pela desocupação que tutelara uma vida enfim verdadeira, dirigiu-se ao bar do centro de emprego. Pelo caminho tropeçou noutras misérias. Rostos sombrios e encavacados, olhares que transpiravam melancolia medonha, uma mãe segurando um bebé ao colo sem saber se podia prometer um futuro à criança. No bar, esperava por atendimento enquanto um velho curvado perguntava se podia ficar a dever cinco cêntimos pelo galão e o pão com manteiga que seria seu tardio pequeno-almoço. E um velho tão velho tinha idade para frequentar um centro de emprego?
Foi-se embora. O dia era mau para continuar no centro de emprego. Talvez o dia seguinte estivesse menos carregado. Esse era seu desejo. Para não se intimidar com as desgraças em cortejo interminável naquele tempo que foi de visita inaugural ao centro de emprego. Não queria que as misérias fossem armadilhas madraças da sua bonançosa desocupação. Foi a primeira vez que temeu pela sanidade mental depois de ter caído no desemprego.

20.3.13

O rosto por fora do retrato


In http://www.sosayweallonline.com/wp-content/uploads/2009/12/hidden-face.jpg
Eram tempos estranhos. Se há uns meses lhe dissessem que esses meses depois engrossaria o exército de desempregados, não saberia se desdenhar da profecia (tal desdita não o podia acossar) ou se meteria as mãos à cabeça em sinal de pânico. E, todavia, desmentida a primeira reação (confirmou-se, não era imprescindível), não era a segunda que o sobressaltava. Tinha como leito uma quietude também ela estranha. Resgatara uma serenidade que não conhecia desde a altura em que não sabia do mundo do trabalho. Alguns anos tinham passado. Havia um lastro de experiência de onde medrava a bonança.

Deteve-se ao espelho enquanto preparava o escanhoar. Deteve-se talvez longamente, tentando decifrar o tempo nas dobras da idade sedimentadas no rosto. Havia rugas, um arremedo de olheiras, uns cabelos grisalhos que irrompiam sem critério. Como se demorou na fiscalização pessoal do próprio rosto, a certa altura parecia que o rosto que era seu lhe não pertencia. Era como se de tanto se fitar no espelho, de tanto dissecar as curvas e esquinas escondidas no rosto, redescobrisse um rosto estranho.

Vincou os cotovelos na pedra fria do lavatório, aproximando o rosto do espelho. De tanto o chegar ao espelho, este ganhou embaciamento. Quanto mais se demorava mais o rosto parecia incógnito. Encontrou uma pequena mancha amarelada junto a uma córnea. Descobriu o lóbulo de uma orelha que descaía mais em comparação com o do outro lado. O nariz não era simétrico. Havia partes da pele que não recebiam barba, já de si rala. O cabelo comprido escondia pelugem inestética assentada no dorso das orelhas.

Recuou até onde pode. Encostou-se à parede. Queria ver o rosto desaproximado. Podia ser que ao longe recuperasse a identidade do rosto que naqueles demorados momentos julgava sumida. Era como se tirasse o próprio rosto de dentro de um retrato, os braços em esforço subindo pela moldura, forçando a ejeção do rosto para fora do retrato. Tinha de sair de todas as fotografias. De fora, haveria de encontrar um rosto recomposto. Em rima com a vida que, em ajuramentação da sua verdade reencontrada, era de uma novidade singular.

A custo, os braços levitaram o rosto para o exterior do retrato. Agora o rosto era uma novidade. Deixara de ser desconhecido.

19.3.13

As estrelas em combustão


In http://download.ultradownloads.com.br/wallpaper/118013_Papel-de-Parede-Combustao_1920x1200.jpg
No entardecer brumoso, à falta de outra serventia do tempo, pegou num livro da estante. O primeiro a que os dedos meteram carne. Veio poesia. Herança de uma antiga namorada que se esquecera do espólio não reclamado. Dele não se sabia sensibilidade para a poesia. Mas estes dias sem rotina eram a procura de algo que viesse sombrear a diferença do habitual. Assim como assim, a reviravolta que a vida dera, agora que a ocupação do tempo excessivo era passatempo forçado (não fosse a sanidade mental ressentir-se), convocava caminhos insondados. Abraçava-se ao que nunca julgara ser manifesto no mapa quotidiano. A poesia era a próxima novidade.
A bruma lá fora compunha o cenário propício aos poemas densos que traziam os olhos cativos. Dantes não julgara ser capaz de ter um livro de poesia nas mãos por um par de horas. E elas já iam, essas horas, sem que o interesse decaísse. Não deu conta do tempo passar. Descobria outro gosto sufocado na vida (sabe-o agora) desinteressante que levava naquela longa altura em que grande parte do tempo era consumido com trabalho desinteressante.
Reteve uma estrofe: “tenho de inventar a minha vida verdadeira.” Releu o verso, vezes e vezes. Tecia analogias mentais com o desafio embainhado há semanas, desde que deixara de contar para a população ativa. Transformou o verso, mudando o ponto final por uma interrogativa: “tenho de inventar a minha vida verdadeira?” Foi a pergunta que não o abandonou nos dias que vieram depois de rompida a rotina de tantos anos. Depressa soube dar resposta – e ela foi sim. Voltou à introspeção, tomando a interrogação como mote numa suave mutação: “tenho conseguido inventar a minha vida verdadeira?
Pousou o livro entreaberto na página onde repousava o verso que tomara a atenção. Deixou o pensamento ir em sua liberdade, ora esbarrando no atrito das ideias feitas, ora escorregando no musgo que fecunda o rompimento com essas ideias feitas. Espreitou sobre os meses de vida reinventada. O orgulho espreitou à superfície. Não tinha saudades de ter um emprego – pelo menos como o emprego enfadonho que deixara de ter. Redescobrira o que já esquecera e muito mais eram as conquistas para o conhecimento. Dele diziam os mais próximos que o olhar tinha um brilho de que já não se lembravam (uns) ou que não conheciam (outros). Foi preciso o sobressalto para nascer uma oferenda airosa, sem que o crepúsculo se intimidasse com o amanhã que se anunciava enferrujado.
Na manhã que veio a seguir, ainda na cama, resgatou o livro ainda aberto na mesma página. Deu conta que o verso que transformara em interrogação semeou outra inquietação: dantes a vida que levava não seria verdadeira. Mas não vinha daí mal ao mundo. Antes chegar a tempo de uma vida. Nem havia tempo para gastar com o arrependimento que o seria se o sobressalto pela vida quimérica se prolongasse para o tempo que estava à espera de o ser.

18.3.13

Cernelha



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Dava voltas e voltas. Virava as páginas que julgava encardidas, as páginas que, todavia, eram um desengano do tamanho maior. O mundo era espreitado pelos óculos turvados pelas cinzas de um vulcão. Os olhos anestesiados pautavam a ilusão do corpo. Tudo parecia uma miragem. Ornamentada a ouro, as águas límpidas correndo em seu leito, as pessoas já não sabendo o norte da boçalidade, e todas as impurezas regressadas ao cárcere sombrio de onde saída jamais devia ter sido franqueada.
Entre a levitação do pensamento que ocupava horas a fio, esbarrava na água fria. O mapa celestial era uma especulação tardia. Ao entardecer, no ocaso escondido entre as nuvens que toldavam o horizonte, metia os dedos na carne e sentia os pesares. Lembrava-se das lágrimas vertidas, da sofreguidão com que a angústia tirara o chão debaixo dos pés. Mas depois o olhar levantava-se do chão ido, fitava os fundilhos do céu e temperava-se de ânimo. À míngua de chão havia outros chãos por pisar, que aquele estava gasto e despedaçara-se em mil estilhaços quando os pés troaram a sua fúria indomável. Os novos chãos eram singulares, um desconhecimento em essência.
O que nunca o outrora desvendara era o tapete floral diante dos pés. Metia-se pelo firmamento fora o tapete encantado, parecia de encontro marcado com o infinito. Um velho com rugas pronunciadas veio ao seu encontro. Segredou-lhe para não se encantar com o bucolismo que tomava freio nos seus olhos. A paisagem era ardilosa – avisara –, os espinhos escondidos entre o tapete ou no meio da folhagem frondosa à espera da primeira estocada para bolçarem o veneno letal.
Tomou-se alertas nos olhos ensonados. Antes uma insónia demorada na demanda pelo tapete florido onde as flores eram de cores mais que o arco-íris. Não lhe fora dada a oportunidade para errar (desta vez). Pedia a si mesmo para ser imarcescível na levitação que encenava um palco formoso, um palco em fina farinha de arroz que se desfazia mal andassem mãos pelo seu dorso. A empreitada era para ser tomada de cernelha. Num gesto robusto, com as mãos secas para se segurarem com firmeza ao dorso da besta enraivecida.
No fim, a cernelha com o dom de amestrar a besta. A sua carne fora amaciada pelo gesto robusto que a ela se atou. Umas mãos feiticeiras trataram do resto.