Lou Reed & Antony Hagerty,
“Perfect Day” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=RXw3RiMnS3M
Uma porção de terra húmida apanhada entre as mãos. Um módico
de alimento, só para trocar as voltas à fome. Um pequeno gesto de afeto, para
contrariar o desamor. Perceber a identidade. Juntar os fragmentos que juram o
pretérito e povoar o tempo vindouro com as lições que deixaram cicatrizes à
flor da pele. Desconfiar dos lautos fazedores de si mesmos e da sua maquinação
egocêntrica. Fazer de conta que essas pessoas não existem – ou, pelo menos, dar
por certo que não contam para as contas que interessam. Apreciar as conversas
que fluem entre o vento. Admirar as constelações de nuvens que adornam o céu. Saber
que há sempre alguém a quem dizer “bom dia”. Dar o devido desconto aos
patriarcas da maldade, sem esquecer que a eles não devem obedecer capitulações.
Desembaciar um vidro fosco que impedia o olhar de ter medida sobre um lado
oculto, dantes ignorado; e intuir as novas possibilidades franqueadas pelo lado
que deixou de ser oculto. Conceber um novo mundo táctil, despovoados os preconceitos
que perdem as suas fartas camadas. Experimentar as palavras que não eram assíduas
no vocabulário, tê-las como auspiciosas. Estender a mão, quando for preciso,
quando apetecer. Entronizar a vontade como estimativa acertada das
probabilidades. Visitar o mundo, apreciar a sua variedade, o seu esplendor. Desatar
o rosto roubado pela desconfiança, devolvê-lo à cortesia metódica. Saber que não
há coisas que não possam ser aprendidas. Ensaiar desenhos singulares sobre as
diferentes janelas que se entrecruzam. Hesitar, quando a vontade adverte que não
há um módico de certeza; e, outras vezes, atirar o corpo de frente para o
desconhecido, numa aventura de que se não sabe a finitude. Evitar os contágios
do que se evita. Saber travar as importunações adestradas. Ensimesmar, se
preciso for – nem que seja como refúgio contra as importunações que merecem ser
barradas à porta do pensamento. E admirar toda a fortuna que se espraia aos pés,
como dádiva de que somos maiores fautores.
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