20.10.21

O que foi feito do saco de caldo-verde?

Hanni El Khatib, “Fuck It. You Win” (live), in https://www.youtube.com/watch?v=QqsqsEWYm4I

Mote: Marcelo lanchou em casa de antigo sem-abrigo e até recebeu um saco de caldo-verde.

Um regente é popular quando desce dos tamancos e se mistura com o povo. Quando de si cunham a imagem que é apenas um entre os demais, como se ele não fosse o seu máximo representante. Em tempos de ditadura da igualdade (todos somos iguais; e, não sendo suficiente, todos temos de ser iguais), a fronteira entre as duas condições torna-se fluida. O regente não deve assumir o pedestal, vincando a distância inacessível perante os representados; mas até os ideólogos da igualdade sem fronteiras admitirão que a banalização da sinecura leva, pelo menos, com o adjetivo da artificialidade.

O regente deve ser a pessoa mais feliz com o levantamento da quarentena e das restrições que travavam o passo ao contacto mais próximo com o próximo. O açaime ainda resiste quando a proximidade é excessiva, nas ruas ou nos espaços fechados onde acontecem cerimónias presididas por sua excelência. Mas já é possível a convivialidade que desmata a solenidade das funções, como se o regente despisse o fato e gravata e vestisse o fato-de-macaco de operário ou envergasse a esfregona (para render homenagem a outro imperativo categórico corrente).

O que fica por saber é o que se esconde nos bastidores das imagens sufragadas pelo público. Como está escondido pelo véu próprio dos bastidores, e a menos que um membro da entourage escorregue para uma inconfidência, o resto fica por conta da especulação. Sua excelência exultou de contentamento porque um homem que conheceu como sem-abrigo já tem casa. Ninguém ficará indiferente à melhoria das condições de vida do homem. Que o episódio seja narrado na comunicação social com a habitual teatralidade de sua excelência, também não é novidade. A imprensa gosta de espetáculo e sua excelência oferece-lhes o plateau, o enredo e a sua pessoa como ator principal. É o melhor dos dois mundos (para esses mundos assim misturados, como se fossem um bolo mármore).

O que ficou por saber foi o destino do caldo-verde. Mandam os costumes que não se nega, nem se transvia, uma prenda. O humilde gesto do homem que foi sem-abrigo não caiu em saco-roto. Pelo menos na imprensa, que vai no engodo da reconhecida espetacularidade do regente que adora passear a imagem da sua popularidade entre as gentes. Terá sua excelência levado o saco de caldo-verde para casa? Esta seria a investigação seguinte a cargo da imprensa tão propícia ao acessório. 

Como é de especulação que se trata, junto umas colheradas para a encenação. Ao entrar na limousine, sua excelência terá ordenado ao ajudante de campo para: (i) entregar o saco de caldo-verde na primeira instituição de caridade pelo caminho; (ii) levar o saco de caldo-verde para o palácio e oferecê-lo a uma das cozinheiras; (iii) “ó homem! Quero lá saber o que vai fazer com esse caldo-verde”; (iv) deitar ao lixo, em não sabendo dos antepassados de higiene do saco de caldo-verde, correspondendo aos seus pergaminhos de hipocondríaco. 

Fica ao critério do leitor.

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