The Durutti Column, “Royal Infirmary”, in https://www.youtube.com/watch?v=D_-_k__W4S4
Possivelmente, posso. Possivelmente posso. A ativação da vontade não é suficiente. Depende de outras, exteriores, vontades. Indago: que vontades são essas? Onde estão? Têm horário de expediente – ou posso enviar um e-mail a más horas? Como devo apresentar o pedido? Essas são vontades sensíveis, e devo ser meticuloso na escolha das palavras para não ferir de morte o pedido por uso desastrado de palavras que não deviam ter sido arregimentadas para o caso em apreço? Devo ser ainda mais meticuloso, apurando casos semelhantes para perceber o histórico desses casos e com eles aprender? Devo-me preparar para o desvencimento de causa? Nessa hipótese, dou por encerrada a demanda ou procuro saber se há instâncias de recurso? O processo repete-se: onde estão as instâncias de recurso? Reúnem vontades ainda mais sensíveis do que a instância de baixo ou são mais recetivas a este pedido? Os termos do recurso devem evitar fórmulas e palavras usadas no pedido inicial ou, por se tratar de uma instância diferente da recorrida, não estou refém desse constrangimento? Devo, em ambos os casos, concluir o pedido com a fórmula sacramental “espera deferimento” (escrevendo na terceira pessoa do singular para me referir à primeira pessoa do singular)? Juntar “espera deferimento” pode ser entendido como o exercício de pressão sobre a vontade que decide sobre o meu pedido, com os efeitos contraproducentes que se adivinham, ou as vontades que decidem (a recorrida e a de recurso) devem ser tolerantes e aceitar a fórmula como o exercício da liberdade de expressão que não pode ser cingida, sob pena de essas vontades arrastarem consigo um anátema antidemocrático? Quando concluo com “espera deferimento”, estou apenas a coroar um raciocínio: se exponho os fundamentos do pedido que quero ver atendido, é compreensível que o raciocínio termine num cabo; esse cabo chama-se “espera deferimento”. Não podem, as vontades decisoras, acusar a suscetibilidade de quem se sente pressionado a decidir de uma certa forma só porque o pedido é coroado com “espera deferimento”. Para que a tolerância não seja assassinada pelos verdugos que se vestem de vontades alheias. Se a justiça não for democrática, não é justiça.
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