2.7.26

A fábrica de fazer reis e rainhas

Sleaford Mods ft. Lene Lovich, “Lucky Disclosure”, in https://www.youtube.com/watch?v=EmGMwe8Ivko

Era num lugar secreto, escondido do mapa e das luzes que descobrem os lugares e os mostram às pessoas, a fábrica de fazer reis e rainhas. Um séquito não numeroso fazia as genuflexões necessárias só para manter acordado o sonho da monarquia. Não interessava que os pretendentes que se sucediam fossem fracos para o cargo; a linhagem e a crença cega suplantavam as fragilidades nunca reconhecidas pelos apaniguados.

O séquito não numeroso mais parecia uma seita, os seguidores de uns gurus apáticos que se esforçavam por exibir pose de estadista, por mais que disfarçassem a falta de habilidade. Naquele lugar secreto, amontoavam-se processos que, se bem finalizados, culminariam no parto de uma futura sua excelência com pretensões ao trono. Ninguém sabia do trono – e ninguém se lembrou de o construir na fábrica de fazer reis e rainhas, apesar da proximidade com Paços de Ferreira. 

Os apaniguados gostavam mais da monarquia do que dos monarcas que desfilaram na linha do tempo. Nunca o admitiam, que a divinização dos pretendentes ao trono inexistente, só por o serem, cegava a lucidez. Sabiam-no; eram eles que elevavam os pretendentes a um estatuto só comparável a deus, o que era uma contradição de termos, pois essas eram as pessoas que frequentavam sacristias com uma assiduidade acima da média. Um dia, um dos rostos visíveis a favor da substituição de presidentes da república por reis ou rainhas foi desafiado a explicar a deificação dos monarcas, mas o interlocutor ficou sem resposta (devido a uma súbita indisposição do interpelado). 

Também ficavam desertas as perguntas sobre a linhagem democrática da monarquia: não sabiam explicar a origem do direito ao trono, nem por que pergaminhos os pretendentes eram reconhecidos como pretendentes. O mesmo rosto mediático não soube explicar que atributos especiais eram reconhecidos para que fulano ou sicrana fossem defendidos como legítimos tutores de um trono de onde ostentariam a sua superioridade em relação aos súbditos. Não valia invocar o direito natural para sujeitar a legitimidade dos pretendentes e dos monarcas investidos.

Aquele lugar secreto onde ficava a fábrica de fazer reis e rainhas era a consciência dos seguidores de reis e rainhas à prova de estribo. Um lugar onírico, preenchido por pretendentes que não eram de carne e osso.

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